Fonte: ADUFC
O terceiro encontro do Seminário “Conhecimentos para um projeto de Brasil Anticapitalista” recebeu Fabio Luis Barbosa dos Santos, professor de Relações Internacionais da Unifesp na última terça-feira (18) na sede da ADUFC em Fortaleza.
A noite teve início com o lançamento do livro “Saudades do que nunca fomos: brasileiros e o futebol” seguido por uma roda de conversa realizada no Espaço Cultural do sindicato. Ao contrário do que recomenda o dito popular, Saudades do que nunca fomos foi escrito justamente para misturar e discutir política e futebol. De acordo com Fabio Luis, as mudanças pelas quais passou o esporte estão intimamente relacionadas às transformações políticas, econômicas, sociais e culturais que atravessaram o país e o mundo desde que o foot-ball foi introduzido pelos ingleses que vieram trabalhar nas ferrovias. Da mesma forma, a recuperação de um estilo próprio ao futebol brasileiro, capaz de encantar os torcedores e oferecer uma alternativa à lógica do dinheiro e do resultado, só será possível se a realidade mudar também fora de campo.
O professor trouxe como um dos elementos de reflexão da conversa o momento em que jogadores, a partir da trajetória do Ronaldo, são trabalhados como uma marca global. O capital internacional se deu conta de que o esporte global é o futebol e que poderia gerar lucros bilionários para as grandes corporações.
“O Romário que foi o detalhe do futebol que se decidia por detalhes. Ele foi o detalhe. Naquela Copa [1994] ele fez gols em todos os jogos, só não fez gol contra os Estados Unidos, mas ele deu um passe. E teria feito um gol se não tivesse sido derrubado pelos Estados Unidos, que foram expulsos no lance. Também não fez na final, porque não teve gol, mas ele bateu um penalti que não estava escalado, não tinha treinado pra bater. Porque é a única Copa que ele jogou e foi ele o melhor jogador da Copa. E eu tô falando isso pra lembrar que naquela Copa a gente ainda tinha muito talento no futebol brasileiro. Inclusive no banco, o Ronaldinho, que depois a gente passou a chamar de fenômeno, ele ainda estava no banco, naquela Copa, mas não jogou. (…) Então, embora fosse contemporâneo do Romário, o Ronaldo é um jogador de um outro tempo, né? (…) Por acaso, naquela Copa de 94, o Ronaldo foi contratado pelo time da Holanda, o PSG, assim como o Romário tinha sido. Só que o Ronaldo assinou um outro contrato, que o Romário não tinha assinado. Foi um contrato com a Nike, como um contrato vitalício. A diferença fundamental entre os dois é que o Ronaldo foi o primeiro jogador brasileiro a ser trabalhado como uma marca global. (…) E assinaram também um contrato com a seleção [brasileira]”, compartilhou.
América Latina e o avanço do conservadorismo
O segundo momento da noite ocorreu no Auditório Izaíra Silvino, com uma exposição do Prof. Fábio Barbosa sobre o avanço do conservadorismo na América Latina. A mesa de abertura teve a coordenação da Prof.ª Eliane Barbosa, primeira suplente da ADUFC, e do Prof. Uribam Xavier, diretor de Relações com Entidades Sindicais e Movimentos Sociais da ADUFC.
Durante a abertura, a Prof.ª Eliane trouxe apontamentos e reflexões sobre a capacidade dos povos da América Latina em construir coletivamente projetos de sociedade que enfrentem as desigualdades, tendo como centralidade a dignidade humana em vez do lucro e acumulação.
“Se estamos nos propondo a pensar conhecimento para o projeto de Brasil anticapitalista, talvez possamos nos perguntar o que aconteceu com aquilo que um dia pensamos que era nosso. Com o nosso futebol, com a nossa cultura, com a nossa economia, inclusive com o nosso futuro, né? Quando eu era jovem, o Brasil era o futuro do mundo, lembram? O futebol talvez seja um lugar privilegiado para observar essa transformação. Aquilo que foi construído socialmente como uma experiência popular, como pertencimento e como parte de uma identidade coletiva, está cada vez mais submetido à lógica de mercadoria das corporações, das finanças e de uma indústria global. Mas essa questão não termina no futebol. Ela nos leva diretamente para a América Latina e a pergunta sobre nossa capacidade de construir projetos de sociedade que enfrentem desigualdade, dependência e que subordinem a economia às necessidades humanas e não ao contrário”, pontuou a professora na abertura.
O professor Fábio trouxe em sua exposição um percurso para refletir sobre a conjuntura brasileira a partir dos acontecimentos políticos da América Latina. A ideia foi debater, a partir dos últimos anos, os rumos que a América Latina tem tomado e, em especial, o crescimento do conservadorismo.
Entre 2015 e 2016, houve muitos acontecimentos políticos que marcaram a América Latina, como a redução do bolivarianismo à minoria parlamentar na Venezuela, a eleição de Macri na Argentina, o “sim à paz” sendo derrotado na Colômbia e o golpe contra a presidenta Dilma no Brasil. Cinco anos depois, em 2020, a vitória de Luis Arce na Bolívia foi celebrada como uma vitória do progressismo, seguida pelas vitórias de Castillo no Peru, Boric no Chile, Petro na Colômbia e Lula reeleito no Brasil em 2021. Apesar de essa aparentar ser uma segunda onda do progressismo na América Latina, o que se vê nos anos seguintes é uma guinada à direita, trocando sonhos por aspirações.
“A gente tem uma mudança de sensibilidade global. Se, no século XX, o sonho de mudança social é encarnado pela ideia da revolução, está dando lugar a um desejo de securitização do que existe. Em vez de as pessoas aspirarem, desejarem a mudança, elas querem a segurança em torno do que existe. Um continente que sonhava com Fidel passa a aspirar a uma figura como Bukele, e uma aspiração é muito diferente de um sonho. A própria ideia de aspiração está na gramática neoliberal. Então, a margem de manobra do progressismo se estreitou desde a onda original, com o Chaves, com o Lula, com o Kirchner, no começo do século XXI, isso que eu estou chamando de onda progressista. E eu acho que isso é fácil de ver com as lentes brasileiras, porque o país que o Lula encontrou em 2023 foi muito diferente de 2003, e diferente para pior, e não só por causa do Bolsonaro que esteve no meio. E por que eu acho? Porque eu entendo que o progressismo deve ser compreendido como uma tentativa de conter uma crise que antecede no tempo, uma crise que vem dos anos 70, e que lhe transcende no espaço, porque é uma crise global”, explicou.
Nayib Armando Bukele Ortez, político e empresário salvadorenho, é filiado ao partido populista de direita Novas Ideias, é presidente de El Salvador desde o ano de 2019, conhecido por decretar um regime de exceção que dura até os dias atuais e impor medidas drásticas para combater a criminalidade no país. O presidente chegou a mencionar nas suas redes sociais que era “o ditador mais cool do mundo”. Bukele tem se tornado um ícone para a direita latino-americana.
“El Salvador vira ponto de peregrinação da direita. Então, como é que a gente sai dessa? Claro que eu não tenho resposta, mas acho que a gente já aprendeu no Brasil que derrotar o Bolsonaro é diferente de derrotar o bolsonarismo. Como é que você derrota o bolsonarismo? Para isso, você precisa mudar a nossa forma social. O que é uma forma social? A reprodução da vida que virou uma engrenagem, uma máquina que produz medo, ódio e indiferença. Então, para dizer meio esquemática, a dinâmica do capital contemporâneo, você produz, as pessoas sobram, não tem trabalho, as pessoas sobram. Então, todo esse regime punitivista de eliminação do outro, ele tem a ver com uma dinâmica social em que as pessoas se sentem ameaçadas pelos sobrantes. O que você vai fazer com os sobrantes? Um outro jeito de olhar é se falta trabalho, porque será que não é possível você construir uma sociedade, por exemplo, que se emancipe do trabalho, ou que as relações sociais, a relação com o trabalho seja completamente diferente?”, pontuou.
A palestra completa está disponível no Youtube da ADUFC:
Para pensar, de novo, um projeto de país
Na próxima terça-feira (25), a ADUFC realiza a última palestra do Seminário “Conhecimentos para um projeto de Brasil Anticapitalista” com o tema “Para pensar, de novo, um projeto de país”. O palestrante convidado é o jornalista Antônio Martins, editor do boletim político e cultural Outras Palavras.
A atividade, que tem início às 19h no Auditório Izaíra Silvino, localizado na sede da ADUFC em Fortaleza, é uma iniciativa do Grupo de Trabalho de Política de Formação Sindical da ADUFC. O seminário tem o intuito de partilhar elementos da ciência política, da economia, da sociologia, da literatura e das tecnologias para capacitar nossa comunidade a desenvolver um entendimento plural e profundo da nossa realidade, bem como contribuir para a qualificação de ativistas políticos e sociais.
A programação é aberta e gratuita. Contamos com a presença dos/as docentes e de toda a comunidade universitária. A atividade contará com intérpretes de Libras e disponibilizará certificados (inscrições realizadas durante o evento).
