O que está em jogo não é apenas o futuro do IBGE. É a soberania do país para conhecer a si mesmo, planejar desenvolvimento e decidir destino
O futuro do desenvolvimento nacional pode depender menos de quem controla os dados e mais de quem possui autoridade para transformá-los em conhecimento oficial sobre o Brasil.
por Reynaldo Aragon
Enquanto a atenção pública se concentrava em crises políticas e disputas eleitorais, uma transformação silenciosa avançava no coração da principal infraestrutura de conhecimento do Estado brasileiro. O que está em jogo não é apenas o futuro do IBGE. É a soberania do Brasil para conhecer a si mesmo, planejar seu desenvolvimento e decidir seu destino em uma era dominada por dados, algoritmos e inteligência artificial.
A crise que quase ninguém percebeu
Enquanto o debate público brasileiro se concentrava nas eleições, na polarização política, nos juros, na inflação, nas redes sociais e nas sucessivas crises institucionais que dominam o noticiário, uma transformação silenciosa avançava em uma das estruturas mais estratégicas do Estado brasileiro. Longe dos holofotes, fora dos programas de televisão e praticamente ausente das grandes manchetes nacionais, uma disputa começou a se desenrolar dentro do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), órgão responsável por produzir o conhecimento oficial sobre a população, o território e a economia do país.
Por trás da controvérsia estava uma questão muito maior: quem terá autoridade para produzir o conhecimento oficial sobre o Brasil na era da inteligência artificial?
A controvérsia deixou de ser uma hipótese quando chegou aos órgãos de controle. Representações encaminhadas ao Tribunal de Contas da União por entidades representativas dos servidores do instituto por entidades representativas dos servidores do instituto questionaram a criação da Fundação IBGE+, argumentando que atividades relacionadas à produção de estatísticas oficiais e informações geocientíficas constituem funções típicas de Estado. O caso levou o TCU a examinar aspectos jurídicos e institucionais da proposta, transformando uma discussão inicialmente restrita ao instituto em um debate nacional sobre governança, autonomia estatística e interesse público.
A pergunta pode parecer abstrata. Não é. Ela toca diretamente a capacidade do Estado brasileiro de conhecer sua população, medir sua economia, mapear seu território, planejar políticas públicas e distribuir recursos entre estados e municípios. Em outras palavras, toca a própria capacidade do país de compreender a si mesmo.
Poucas instituições exercem uma influência tão ampla e silenciosa sobre a vida nacional quanto o IBGE. Quando o instituto divulga o número de habitantes de um município, bilhões de reais em transferências federais podem ser afetados. Quando mede a inflação através do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), influencia decisões que repercutem sobre juros, crédito, investimentos e emprego. Quando calcula o Produto Interno Bruto (PIB), fornece uma das principais referências para governos, empresas, investidores e organismos internacionais. Quando realiza o Censo Demográfico, redefine a fotografia oficial do país.
Nada disso acontece por acaso. Cada indicador produzido pelo instituto resulta de metodologias consolidadas ao longo de décadas, procedimentos técnicos rigorosos, trabalho de campo, amostragem estatística, validação científica e uma cultura institucional construída ao longo de quase noventa anos. O que está em jogo, portanto, não é apenas uma base de dados. É uma autoridade pública reconhecida para transformar informações dispersas em conhecimento oficial.
É justamente essa autoridade que entrou no centro da disputa.
Nos últimos anos, o avanço das tecnologias de Big Data, inteligência artificial, computação em nuvem e integração massiva de registros administrativos passou a desafiar institutos nacionais de estatística em todo o mundo. Governos passaram a dispor de volumes sem precedentes de informações produzidas por sistemas tributários, previdenciários, educacionais, sanitários e assistenciais. Ao mesmo tempo, a capacidade computacional para cruzar, processar e interpretar esses dados cresceu exponencialmente.
O Brasil não ficou à margem desse processo. Pelo contrário. O lançamento do Sistema Nacional de Inteligência e Governança Estatística e Geocientífica (SINGED), a aproximação institucional entre IBGE e SERPRO, o discurso em torno das chamadas políticas públicas preditivas e as propostas de modernização da produção estatística sinalizam que o país está entrando em uma nova etapa de sua infraestrutura de conhecimento.
Os defensores dessa transformação argumentam que o Estado precisa incorporar inteligência artificial, ampliar a integração de bases de dados e desenvolver capacidades preditivas capazes de antecipar problemas sociais, econômicos e territoriais. Sob essa perspectiva, a modernização não seria uma escolha, mas uma necessidade histórica.
Os críticos não rejeitam essa modernização. O ponto central de suas preocupações é outro. Para eles, a questão decisiva não é se o IBGE deve utilizar inteligência artificial ou registros administrativos. A questão é sob quais regras, sob qual governança, com quais mecanismos de transparência, sob qual grau de controle público e com quais garantias institucionais.
Foi nesse contexto que surgiram os alertas de servidores, pesquisadores e especialistas ligados ao instituto. Em documentos públicos, notas técnicas e manifestações encaminhadas a órgãos de controle, eles passaram a questionar não apenas determinadas iniciativas específicas, mas os rumos mais amplos da transformação em curso. A preocupação recorrente dizia respeito à preservação da autonomia estatística, da independência metodológica, do sigilo estatístico e da autoridade técnica historicamente associada ao IBGE.
O debate rapidamente deixou de ser apenas administrativo.
A Fundação IBGE+, posteriormente questionada e alvo de análise do Tribunal de Contas da União, tornou-se o símbolo visível de um conflito muito mais profundo. O que emergiu a partir dali foi uma disputa sobre o futuro da produção de conhecimento oficial no Brasil. Uma disputa que envolve tecnologia, governança, poder institucional e soberania.
Em um mundo cada vez mais orientado por dados, algoritmos e modelos preditivos, controlar a infraestrutura que mede a realidade pode ser tão estratégico quanto controlar fontes de energia, sistemas financeiros ou redes de comunicação. Afinal, toda política pública começa por uma pergunta aparentemente simples: o que está acontecendo?
Responder essa pergunta exige informações confiáveis. Exige métodos transparentes. Exige instituições legitimadas para transformar milhões de dados dispersos em conhecimento público. Exige, sobretudo, confiança.
É por isso que a crise do IBGE não pode ser compreendida como uma disputa burocrática ou corporativa. O que está em jogo não é apenas o futuro de uma instituição. É a capacidade do Estado brasileiro de continuar produzindo uma interpretação soberana sobre sua própria realidade.
A partir daqui, a pergunta que orientará esta investigação é simples e ao mesmo tempo decisiva: quem medirá o Brasil nas próximas décadas?
A instituição que faz o Brasil existir em números
Para compreender a dimensão da crise que atravessa o IBGE, é preciso entender primeiro o que exatamente está sendo disputado. O instituto costuma aparecer no noticiário associado a pesquisas econômicas, índices de inflação ou resultados do Censo Demográfico. Essa imagem, embora correta, é insuficiente. Ela captura apenas a superfície de uma instituição cuja função ultrapassa em muito a produção de estatísticas. O IBGE é, na prática, uma das principais infraestruturas de conhecimento do Estado brasileiro.
Criado em 1936, o IBGE tornou-se uma das poucas instituições capazes de produzir uma fotografia abrangente do país. Seus números orientam desde a distribuição de recursos federais até decisões sobre juros, investimentos, políticas sociais, infraestrutura e planejamento territorial. Em um país continental, marcado por profundas desigualdades regionais, conhecer a realidade não é apenas uma necessidade administrativa. É uma condição para governar.
Criado em 1936, durante o processo de modernização administrativa do Estado brasileiro, o instituto nasceu com uma missão estratégica: permitir que o país conhecesse a si mesmo. Ao longo das décadas, essa missão se expandiu e se sofisticou. O órgão passou a produzir estatísticas econômicas, sociais, demográficas e ambientais, além de informações geográficas, cartográficas e territoriais que servem de referência para praticamente toda a administração pública brasileira. Em termos concretos, o instituto produz os instrumentos que permitem ao Estado enxergar o país.
Quando o IBGE realiza um Censo Demográfico, ele não está apenas contando pessoas. Está produzindo a fotografia oficial da sociedade brasileira. Quando divulga a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), não está apenas medindo emprego e renda. Está oferecendo uma das principais referências para a formulação de políticas econômicas e sociais. Quando calcula o Produto Interno Bruto, fornece um retrato da dinâmica econômica nacional. Quando mede a inflação por meio do IPCA, produz um indicador que influencia decisões sobre juros, crédito, investimentos e planejamento empresarial.
A influência do instituto se espalha por toda a estrutura estatal. Os dados populacionais do Censo e das estimativas anuais de população são utilizados para calcular a distribuição do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), mecanismo responsável pela transferência de bilhões de reais da União para os governos municipais. Após a divulgação dos resultados do Censo de 2022, centenas de municípios foram diretamente afetados pelas novas contagens populacionais, levando o Congresso Nacional a discutir mecanismos de transição para evitar perdas abruptas de receita. Da mesma forma, projeções populacionais orientam políticas de saúde, educação, previdência e habitação. Informações territoriais subsidiam ações de infraestrutura, defesa civil e planejamento regional. Indicadores econômicos alimentam decisões do Ministério da Fazenda, do Banco Central e de organismos internacionais.
Poucas instituições possuem uma capilaridade semelhante. Mas existe um aspecto ainda mais importante. O poder do IBGE não decorre apenas da quantidade de informações que produz. Decorre da confiança depositada nessas informações. Essa confiança não surge espontaneamente. Ela é resultado de décadas de construção institucional. Cada pesquisa realizada pelo instituto segue protocolos metodológicos públicos, critérios científicos definidos, padrões internacionais de comparabilidade e mecanismos de controle técnico destinados a garantir consistência e credibilidade. É justamente por isso que os números produzidos pelo IBGE possuem um status singular. Eles não são apenas dados. São dados reconhecidos como oficiais.
Essa diferença é decisiva. Empresas privadas, plataformas digitais e instituições financeiras produzem diariamente volumes gigantescos de informações. Grandes empresas de tecnologia conhecem hábitos de consumo, deslocamentos, preferências culturais e padrões de comportamento de bilhões de indivíduos. No entanto, nenhuma dessas organizações possui legitimidade para definir oficialmente quantos brasileiros existem, qual é a taxa de desemprego nacional, quanto cresceu a economia ou qual foi a inflação acumulada no ano. Essa autoridade pertence ao Estado e foi construída ao longo de décadas por meio do sistema nacional de estatísticas oficiais, cuja principal instituição é o IBGE.
Por essa razão, a discussão atual não pode ser reduzida a uma simples controvérsia sobre modernização tecnológica. O que está em jogo não é apenas a forma como os dados serão processados, armazenados ou integrados. O que está em jogo é a preservação da autoridade pública responsável por transformar informações dispersas em conhecimento oficial. Dados podem existir em inúmeros lugares. Conhecimento oficial exige instituições, metodologia, transparência, legitimidade e confiança pública. É exatamente por isso que a disputa em torno do futuro do IBGE possui implicações que ultrapassam em muito os limites da própria instituição. Quando se questiona a forma como o país produzirá suas estatísticas oficiais nas próximas décadas, está se discutindo, em última instância, a capacidade do Brasil de compreender sua própria realidade. E um país que perde a capacidade de medir a si mesmo corre o risco de perder também a capacidade de planejar o próprio futuro.
Quem mede o Brasil controla o planejamento do Brasil
A melhor forma de compreender a importância estratégica do IBGE talvez seja imaginar o que aconteceria se ele deixasse de existir por alguns anos. O exercício parece absurdo, mas ajuda a revelar algo que normalmente permanece invisível. Sem o instituto, o Estado brasileiro perderia sua principal referência para compreender quem somos, onde estamos, como vivemos e quais transformações estão ocorrendo na sociedade.
Não se trata apenas de produzir estatísticas. Trata-se de produzir as informações que permitem ao poder público tomar decisões. Em um país com dimensões continentais, mais de 5.500 municípios e uma população superior a 200 milhões de habitantes, governar sem informações confiáveis seria como tentar atravessar uma floresta densa sem mapa, bússola ou horizonte.
O exemplo mais evidente está na distribuição de recursos públicos. As estimativas populacionais produzidas pelo IBGE servem de base para o cálculo do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), um dos principais mecanismos de transferência de recursos da União para as cidades brasileiras. Quando o Censo Demográfico de 2022 atualizou a contagem populacional do país, centenas de municípios descobriram que tinham menos habitantes do que imaginavam. Em muitos casos, isso significou a redução dos coeficientes utilizados para calcular os repasses federais. A reação foi imediata. Prefeitos pressionaram o Congresso Nacional, que aprovou uma regra de transição para evitar perdas abruptas de arrecadação. O episódio mostrou, na prática, o alcance da autoridade estatística do instituto. Uma simples revisão populacional foi suficiente para mobilizar centenas de prefeitos, provocar articulações no Congresso Nacional e alterar projeções orçamentárias em municípios de todas as regiões do país. Não se discutia apenas um número. Discutia-se dinheiro, planejamento e capacidade administrativa. A controvérsia revelou algo fundamental: um número produzido pelo IBGE pode alterar diretamente o orçamento de uma cidade inteira.
A mesma lógica se aplica à economia nacional. O Produto Interno Bruto, o PIB, não é apenas um indicador econômico reproduzido em telejornais e relatórios financeiros. Ele é utilizado para orientar políticas públicas, decisões empresariais, projeções fiscais e investimentos. Quando o IBGE informa que a economia cresceu ou desacelerou, não está apenas descrevendo o passado. Está influenciando decisões que afetam o futuro.
O mesmo ocorre com a inflação. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, o IPCA, calculado pelo instituto, é a principal referência para o regime de metas de inflação adotado pelo Banco Central. A partir dele são tomadas decisões que influenciam a taxa básica de juros, o crédito disponível na economia, o custo do financiamento imobiliário, os investimentos produtivos e o ritmo de crescimento do país. Para milhões de brasileiros, a inflação medida pelo IBGE afeta diretamente a prestação do imóvel, o valor do empréstimo, o rendimento da poupança e o preço dos alimentos.
A influência do instituto também alcança áreas menos visíveis, mas igualmente decisivas. Hospitais, escolas, creches, sistemas de transporte e programas sociais dependem de projeções demográficas produzidas pelo IBGE. Um município que não conhece adequadamente sua população idosa corre o risco de subdimensionar sua rede de saúde. Uma região que não acompanha o crescimento da população infantil pode enfrentar déficit de vagas escolares. Um estado que desconhece seus fluxos migratórios perde capacidade de planejar infraestrutura, habitação e mobilidade urbana.
O próprio combate à desigualdade depende dessas informações. Programas sociais, políticas de transferência de renda, ações de desenvolvimento regional e estratégias de combate à pobreza exigem diagnósticos precisos sobre renda, emprego, escolaridade e condições de vida. Sem dados confiáveis, o risco é que políticas públicas passem a ser formuladas com base em percepções, pressões políticas ou interesses setoriais, e não em evidências.
Existe ainda uma dimensão territorial frequentemente ignorada. O IBGE não é apenas um produtor de estatísticas. É também a principal instituição geocientífica do país. Seus mapas, bases cartográficas, levantamentos geográficos e informações territoriais são utilizados por órgãos ambientais, agências reguladoras, sistemas de defesa civil, governos estaduais e municípios. Questões relacionadas à ocupação do território, à expansão urbana, à preservação ambiental e à infraestrutura dependem diretamente desse conhecimento.
Por trás de cada política pública existe uma pergunta aparentemente simples: quantos somos, onde estamos e como vivemos? O IBGE é a instituição encarregada de responder a essas perguntas. É por isso que sua importância não pode ser medida apenas pela quantidade de pesquisas que realiza ou pelos relatórios que publica. Sua verdadeira relevância está no fato de que praticamente todas as grandes decisões do Estado brasileiro dependem, em algum momento, das informações que produz.
Essa constatação ajuda a compreender por que a disputa atual ultrapassa os limites de uma controvérsia administrativa. Quando se discute o futuro do IBGE, discute-se também a qualidade das informações que orientam o planejamento nacional. Discute-se quem terá autoridade para produzir essas informações. E, em última instância, discute-se quem terá condições de definir os parâmetros pelos quais o Brasil compreenderá a si mesmo nas próximas décadas.
Porque quem mede o Brasil não controla apenas números. Controla os instrumentos que tornam possível governar o país.
A Fundação IBGE+ e o início da tempestade
A crise não começou com a inteligência artificial. Não começou com o SINGED. Tampouco começou com a discussão sobre políticas públicas preditivas. O ponto de ruptura que trouxe para a superfície um conflito que vinha se acumulando há anos teve um nome específico: Fundação IBGE+.
A proposta da Fundação IBGE+ surgiu em meio a um contexto de restrições orçamentárias, redução do quadro de servidores e crescente pressão por modernização tecnológica. Apresentada como instrumento para ampliar a capacidade de financiamento de projetos e estabelecer parcerias, a iniciativa rapidamente gerou controvérsia. Entidades representativas dos trabalhadores passaram a questionar sua compatibilidade com a natureza institucional do IBGE, argumentando que atividades relacionadas à produção de estatísticas oficiais e informações geocientíficas constituem funções típicas de Estado e, portanto, não deveriam ser transferidas ou compartilhadas por meio de estruturas paralelas de governança.
Apresentada como uma alternativa para ampliar a capacidade de captação de recursos e fortalecer projetos institucionais, a proposta foi defendida por seus formuladores como um mecanismo de modernização administrativa. Em um contexto de restrições orçamentárias, envelhecimento dos quadros técnicos e crescente demanda por novas capacidades tecnológicas, a fundação aparecia, segundo seus defensores, como uma ferramenta para ampliar a flexibilidade operacional do instituto e abrir caminhos para parcerias, investimentos e projetos de inovação.
A proposta, no entanto, encontrou resistência imediata dentro do próprio IBGE.
Para uma parcela significativa dos servidores, pesquisadores e especialistas vinculados à instituição, a criação da fundação representava muito mais do que uma mudança administrativa. A preocupação central não estava apenas na nova estrutura jurídica. Estava na possibilidade de criação de uma camada paralela de governança em uma instituição cuja missão constitucional depende justamente de independência técnica, estabilidade institucional e confiança pública.
A reação foi rápida. Entidades representativas dos trabalhadores, entre elas a ASSIBGE-SN, passaram a produzir notas técnicas, pareceres jurídicos e representações aos órgãos de controle, documentos jurídicos e análises institucionais questionando os fundamentos da proposta. O argumento recorrente era que o IBGE não poderia ser tratado como uma instituição comum de pesquisa ou inovação. Sua função ultrapassaria os limites de um centro científico tradicional, aproximando-se muito mais daquilo que o ordenamento jurídico brasileiro reconhece como atividade típica de Estado.
A controvérsia ganhou uma nova dimensão quando o debate chegou aos órgãos de controle. Representações foram encaminhadas ao Tribunal de Contas da União questionando aspectos jurídicos, institucionais e administrativos da iniciativa. Entre os argumentos apresentados apareciam preocupações relacionadas à autonomia institucional, à natureza das atividades desempenhadas pelo instituto e aos riscos associados à criação de estruturas paralelas de captação e gestão de recursos.
O que inicialmente parecia uma disputa restrita aos corredores da administração pública começou a ganhar densidade política e institucional.
À medida que os documentos se acumulavam, tornou-se evidente que a divergência não se limitava à existência ou não de uma fundação. O verdadeiro conflito dizia respeito ao significado do próprio IBGE. Afinal, o instituto deveria ser tratado como uma organização de pesquisa capaz de buscar modelos flexíveis de financiamento e gestão, ou como uma infraestrutura estratégica do Estado cuja missão exige salvaguardas institucionais especiais?
A pergunta não era trivial.
Ao longo de quase nove décadas, a credibilidade do IBGE foi construída sobre alguns pilares fundamentais: independência metodológica, sigilo estatístico, transparência técnica e confiança pública. Qualquer mudança institucional que afetasse esses pilares inevitavelmente despertaria preocupações.
Foi nesse contexto que o Tribunal de Contas da União passou a ocupar posição central na crise. A análise conduzida pelo órgão não apenas conferiu legitimidade institucional às preocupações levantadas por servidores e especialistas, como também ampliou a visibilidade de um debate que até então permanecia relativamente restrito.
A controvérsia deixou de ser um assunto interno do instituto.
Transformou-se em uma discussão sobre os limites da modernização administrativa em instituições responsáveis por funções típicas de Estado.
Ao mesmo tempo, outro elemento começava a ganhar espaço no debate. Em paralelo à discussão sobre a fundação, avançavam projetos relacionados à integração de bases de dados, inteligência artificial, interoperabilidade e políticas públicas preditivas. Para muitos observadores, os dois processos eram independentes. Para outros, constituíam partes diferentes de uma mesma transformação institucional.
A percepção de que mudanças estruturais estavam ocorrendo simultaneamente em diversas frentes contribuiu para ampliar as preocupações dentro e fora do instituto. Não se discutia mais apenas uma fundação. Discutia-se o modelo de produção de conhecimento oficial que orientaria o Estado brasileiro nas próximas décadas.
A partir daquele momento, a crise deixaria de ser uma controvérsia administrativa para se transformar em algo maior. O debate passaria a envolver conceitos como soberania estatística, governança de dados, autoridade metodológica e independência institucional. Em outras palavras, passaria a envolver a própria capacidade do Brasil de preservar uma produção de conhecimento oficial baseada em critérios públicos, transparentes e democraticamente legitimados.
A Fundação IBGE+ foi o estopim. Mas a tempestade que ela revelou já estava se formando muito antes de sua criação.
O que os servidores viram que o país não viu
Durante boa parte do debate público, os questionamentos apresentados por servidores do IBGE foram frequentemente interpretados como resistência corporativa a mudanças institucionais. A narrativa era simples. De um lado estaria a modernização. Do outro, setores receosos das transformações tecnológicas e administrativas que atravessam o Estado contemporâneo.
Os documentos produzidos pelos próprios servidores contam uma história muito diferente.
Ao longo da crise, entidades representativas da categoria publicaram notas técnicas, estudos institucionais e documentos analíticos que ultrapassavam em muito uma discussão sobre orçamento, carreira ou estrutura administrativa. O centro de suas preocupações estava em outro lugar. O que aparecia repetidamente era o temor de que uma transformação tecnológica legítima acabasse produzindo uma transformação institucional muito mais profunda e menos visível.
A principal evidência disso surgiu em textos como a Nota Técnica em Defesa do IBGE como Órgão Típico de Estado, o documento Epistemologia da Quantificação na Era da Algocracia e o livreto Estatísticas Oficiais na Era da Algocracia. s documentos produzidos durante a crise chamam atenção para um ponto específico: a modernização tecnológica não pode significar a substituição da autoridade estatística por sistemas automatizados de inferência. Em diferentes formulações, os autores alertam que o IBGE não pode ser reduzido a uma infraestrutura de processamento de dados nem a uma plataforma de integração de registros administrativos. Sua função histórica consiste em produzir conhecimento oficial a partir de métodos públicos, auditáveis e cientificamente verificáveis, preservando a independência técnica que sustenta a confiança da sociedade nos números produzidos pelo Estado. Em nenhum deles aparece uma rejeição à inteligência artificial, ao uso de registros administrativos ou à incorporação de novas tecnologias. Pelo contrário. Os documentos reconhecem explicitamente a importância dessas ferramentas para a modernização da produção estatística.
O ponto de divergência está em outra pergunta.
O que acontece quando sistemas de inferência algorítmica passam a ocupar um espaço cada vez maior na produção do conhecimento oficial?
A questão pode parecer excessivamente teórica. Não é.
Historicamente, a legitimidade das estatísticas oficiais foi construída sobre um conjunto de procedimentos públicos e verificáveis. Pesquisadores definem metodologias, constroem questionários, realizam trabalho de campo, aplicam técnicas de amostragem, validam resultados e submetem seus métodos ao escrutínio público e científico. A autoridade dos números decorre justamente desse processo.
O avanço do Big Data, dos registros administrativos integrados e da inteligência artificial introduz uma nova camada nesse modelo. Em vez de depender predominantemente de pesquisas concebidas para fins estatísticos, governos passam a utilizar bases originalmente produzidas para outras finalidades. Cadastros tributários, registros previdenciários, sistemas de saúde, informações educacionais e bancos de dados administrativos tornam-se matéria-prima para análises cada vez mais sofisticadas.
Essa transformação oferece vantagens evidentes. Permite maior velocidade, maior escala e maior capacidade analítica. Mas também produz novos desafios.
Registros administrativos não foram criados para medir a realidade social. Foram criados para executar funções administrativas específicas. Um cadastro previdenciário existe para administrar benefícios. Um sistema tributário existe para arrecadar impostos. Um cadastro assistencial existe para operacionalizar programas sociais. Quando essas bases passam a ser utilizadas para produzir conhecimento estatístico, surgem problemas metodológicos que exigem cuidados rigorosos.
Quem está ausente desses registros? Quem aparece mais de uma vez? Quais populações permanecem invisíveis? Como medir informalidade, vulnerabilidade social ou dinâmicas territoriais complexas apenas por meio de registros administrativos? Como garantir comparabilidade histórica entre séries produzidas por metodologias diferentes?
Essas perguntas aparecem repetidamente nos documentos produzidos pelos servidores.
O alerta mais sofisticado, contudo, vai além das questões metodológicas. Ele diz respeito àquilo que os autores chamam de transferência da autoridade epistêmica. Em termos simples, trata-se da possibilidade de que a capacidade de interpretar a realidade migre gradualmente de instituições públicas transparentes para sistemas de inferência cada vez mais complexos e menos compreensíveis para a sociedade.
O problema não é a existência de algoritmos.
Toda estatística envolve modelos.
Toda pesquisa envolve escolhas metodológicas.
Toda produção de conhecimento exige interpretação.
O problema surge quando essas escolhas deixam de ser facilmente auditáveis, compreensíveis e contestáveis.
Nos documentos analisados ao longo desta investigação, aparece de forma recorrente a preocupação com aquilo que os autores descrevem como risco de captura da verdade estatística. A expressão pode soar dramática, mas aponta para uma questão fundamental: quem controla os critérios que transformam dados em conhecimento?
A pergunta é decisiva porque dados, por si só, não falam.
Eles precisam ser organizados, classificados, interpretados e contextualizados. Alguém define quais variáveis serão observadas. Alguém define quais modelos serão utilizados. Alguém define quais correlações serão consideradas relevantes. Alguém define quais indicadores serão produzidos.
Em outras palavras, sempre existe uma camada humana anterior ao algoritmo.
Foi justamente essa percepção que levou parte significativa dos servidores a enxergar a crise do IBGE como algo muito maior do que uma discussão administrativa. O temor não era o surgimento de novas tecnologias. O temor era que a modernização tecnológica viesse acompanhada de uma erosão silenciosa das garantias institucionais que historicamente sustentaram a credibilidade da estatística oficial brasileira.
Essa preocupação não é exclusiva do Brasil. Organismos internacionais ligados às estatísticas oficiais vêm debatendo há anos como incorporar inteligência artificial, Big Data e registros administrativos sem comprometer princípios fundamentais como independência profissional, transparência metodológica, auditabilidade e confiança pública.
Sob essa perspectiva, a crítica dos servidores deixa de parecer uma resistência ao futuro. Na verdade, ela passa a ser uma disputa sobre as condições sob as quais esse futuro será construído.
É justamente aqui que a crise do IBGE assume sua dimensão mais profunda. O conflito deixa de ser uma discussão sobre tecnologia. Passa a ser uma discussão sobre quem terá autoridade para definir, interpretar e validar a realidade oficial brasileira em uma era cada vez mais mediada por dados, algoritmos e sistemas preditivos.
E foi exatamente nesse ponto que a discussão sobre estatísticas oficiais começou a se transformar em uma discussão sobre soberania.
A República dos Dados
Durante grande parte da história moderna, o poder esteve associado ao controle de territórios, recursos naturais, rotas comerciais, infraestrutura e capacidade militar. Impérios expandiam fronteiras. Estados disputavam reservas de energia. Potências competiam por mercados e zonas de influência. No século XXI, entretanto, uma nova camada foi adicionada a essa geografia do poder. Dados passaram a ocupar uma posição estratégica semelhante à que o petróleo ocupou durante boa parte do século passado. A capacidade de coletar, processar, interpretar e utilizar informações em larga escala transformou-se em um dos principais ativos da economia contemporânea.
Não por acaso, as maiores corporações do planeta são justamente aquelas que controlam grandes infraestruturas informacionais. Plataformas digitais acompanham hábitos de consumo, deslocamentos, preferências culturais, relações sociais e padrões comportamentais de bilhões de indivíduos. A economia digital converteu dados em matéria-prima e algoritmos em mecanismos de previsão. Quanto mais informação uma organização possui, maior tende a ser sua capacidade de antecipar tendências, influenciar decisões e organizar mercados.
Mas existe uma diferença fundamental entre os dados produzidos pelas grandes plataformas e o conhecimento produzido por instituições públicas. Empresas privadas coletam informações para fins econômicos. Seu objetivo principal é otimizar produtos, ampliar receitas, direcionar publicidade ou aumentar eficiência operacional. Estatísticas oficiais cumprem outra função. Elas existem para produzir conhecimento público sobre a sociedade, permitindo que governos, pesquisadores e cidadãos compreendam a realidade por meio de procedimentos transparentes, auditáveis e metodologicamente consistentes.
Essa distinção ajuda a entender por que o crescimento explosivo do Big Data não tornou obsoletos os censos demográficos, as pesquisas domiciliares ou os levantamentos estatísticos tradicionais. Pelo contrário. Quanto maior a quantidade de dados disponível, maior se torna a necessidade de mecanismos capazes de verificar sua qualidade, sua representatividade e seus limites. Uma plataforma digital pode conhecer milhões de consumidores e ainda assim não ser capaz de retratar adequadamente uma sociedade inteira. Populações desconectadas, trabalhadores informais, comunidades rurais, povos indígenas e grupos socialmente vulneráveis frequentemente escapam dessas bases. O volume de informação não elimina automaticamente os problemas de representação. Em muitos casos, apenas os torna menos visíveis.
Foi justamente nesse contexto que os institutos nacionais de estatística passaram a enfrentar um dos maiores desafios de sua história. Como incorporar inteligência artificial, registros administrativos e novas capacidades computacionais sem abrir mão dos princípios que garantem credibilidade às estatísticas oficiais?
No Brasil, essa transformação deixou de ser apenas uma tendência internacional para se tornar uma política institucional concreta. A criação do Sistema Nacional de Inteligência e Governança Estatística e Geocientífica (SINGED), defendida pela atual gestão do IBGE, propõe integrar informações produzidas por diferentes órgãos do Estado para ampliar a capacidade analítica e preditiva das políticas públicas. Paralelamente, acordos de cooperação com o SERPRO passaram a ser apresentados como instrumentos para fortalecer infraestrutura digital, interoperabilidade de sistemas e tratamento de grandes volumes de dados. Para os defensores do modelo, trata-se de uma evolução necessária da capacidade estatal. Para os críticos, entretanto, a velocidade dessa transformação exige um debate público mais profundo sobre governança, transparência, auditoria e preservação da autoridade estatística.
O Brasil não está isolado desse debate. O surgimento do Sistema Nacional de Inteligência e Governança Estatística e Geocientífica, o SINGED, representa uma das expressões mais visíveis dessa transformação. A iniciativa parte de uma constatação correta: o Estado brasileiro produz diariamente um volume gigantesco de informações por meio de sistemas tributários, previdenciários, educacionais, sanitários, assistenciais e territoriais. Integrar essas bases pode ampliar a capacidade estatal de compreender problemas complexos e formular respostas mais rápidas e precisas.
Os defensores desse modelo argumentam que a inteligência artificial e a integração de registros administrativos permitirão que políticas públicas deixem de atuar apenas de forma reativa. Em vez de responder a problemas já consolidados, governos poderiam identificar tendências emergentes, antecipar demandas e agir preventivamente. Sob essa perspectiva, o uso de capacidades preditivas não representa uma ruptura com a missão do Estado, mas uma evolução de seus instrumentos de planejamento.
A questão central, porém, não está na tecnologia. Está na governança da tecnologia. Quem define os critérios pelos quais diferentes bases serão integradas? Quem estabelece as metodologias utilizadas para produzir inferências? Quem audita os modelos empregados? Quem responde pelos erros? Quem controla os mecanismos responsáveis por transformar bilhões de registros dispersos em conhecimento oficial? Essas perguntas conduzem diretamente ao centro da crise do IBGE porque revelam que a disputa não é sobre a existência dos dados. O Brasil já possui dados em abundância. A disputa é sobre autoridade.
Essa talvez seja a questão mais importante de toda a investigação. Dados não falam por conta própria. Eles precisam ser organizados, classificados, interpretados e contextualizados. Alguém decide quais variáveis serão observadas. Alguém define quais correlações serão consideradas relevantes. Alguém escolhe quais indicadores serão produzidos. Em última instância, alguém estabelece os critérios que transformarão informação bruta em conhecimento socialmente reconhecido como legítimo. É justamente nesse ponto que emerge o conceito de soberania estatística.
Durante décadas, a soberania foi associada ao controle de fronteiras, recursos naturais e capacidades produtivas. A revolução digital acrescentou uma nova dimensão a esse debate. Países que não controlam suas infraestruturas de informação correm o risco de perder gradualmente a capacidade de interpretar a própria realidade. A questão deixa de ser apenas tecnológica e passa a ser geopolítica. Quem controla os mecanismos de medição influencia a forma como problemas são identificados, prioridades são definidas e políticas públicas são formuladas. Quem controla os sistemas de classificação influencia a maneira pela qual uma sociedade passa a compreender a si mesma.
É por isso que a crise do IBGE ultrapassa os limites de uma controvérsia administrativa. O que está em discussão não é apenas a adoção de novas tecnologias, mas as condições institucionais sob as quais essas tecnologias serão utilizadas. O desafio não consiste em escolher entre estatística tradicional e inteligência artificial. O verdadeiro desafio consiste em construir uma infraestrutura pública capaz de incorporar as potencialidades da era digital sem abrir mão da transparência, da auditabilidade, da independência metodológica e da confiança pública que historicamente sustentaram a legitimidade das estatísticas oficiais.
No fundo, a questão que atravessa todo esse debate é mais simples do que parece. Na República dos Dados, o recurso estratégico mais importante não é a informação. É a autoridade necessária para transformá-la em conhecimento público legítimo.
A batalha pela autoridade estatística nacional
A crise do IBGE atingiu um novo patamar quando o debate deixou de girar apenas em torno da Fundação IBGE+ e passou a envolver diretamente a arquitetura futura da produção estatística brasileira. O que antes parecia uma controvérsia administrativa começou a revelar um conflito mais profundo sobre autoridade institucional, governança de dados e capacidade estatal.
Em junho de 2024, o Tribunal de Contas da União decidiu suspender os efeitos relacionados à Fundação IBGE+, acolhendo questionamentos apresentados por entidades representativas dos servidores. A controvérsia havia sido levada ao tribunal por meio de representação que argumentava existir incompatibilidade entre as finalidades da fundação e a natureza das atividades desempenhadas pelo instituto. O caso rapidamente ultrapassou os limites internos da administração pública e passou a ser acompanhado por parlamentares, especialistas em estatísticas oficiais e órgãos de controle.
A decisão do TCU não encerrou o debate. Mas produziu um efeito político importante. Pela primeira vez, a discussão sobre o futuro institucional do IBGE deixava de ser uma divergência interna para se tornar uma questão de interesse nacional.
Ao mesmo tempo, a gestão do instituto defendia que o país precisava enfrentar desafios que já vinham sendo discutidos por organismos estatísticos em todo o mundo. O presidente do IBGE, Marcio Pochmann, passou a defender publicamente a necessidade de modernizar a produção estatística nacional por meio da integração de registros administrativos, uso de inteligência artificial e desenvolvimento de capacidades preditivas. A criação do Sistema Nacional de Inteligência e Governança Estatística e Geocientífica, o SINGED, tornou-se um dos símbolos dessa estratégia.
A proposta partia de um diagnóstico que poucos contestam. O Estado brasileiro produz diariamente volumes gigantescos de informação. CadÚnico, Receita Federal, Previdência Social, sistemas de saúde, educação, trabalho e assistência social acumulam registros que, quando analisados em conjunto, podem oferecer um retrato extremamente detalhado da realidade nacional. O desafio consiste em transformar esse patrimônio informacional em inteligência pública sem comprometer princípios fundamentais das estatísticas oficiais.
A discussão ganhou nova intensidade quando documentos analisados por entidades representativas dos servidores passaram a apontar preocupações relacionadas à infraestrutura tecnológica que sustentará essa transformação. Entre os pontos levantados aparecem acordos de cooperação com o SERPRO, iniciativas de integração massiva de bases de dados e o uso de ambientes computacionais voltados ao processamento em larga escala. Para os críticos, a questão não se resume à eficiência tecnológica. Trata-se de compreender quem controlará a arquitetura responsável por armazenar, integrar, processar e transformar informações públicas em conhecimento oficial. Em uma era marcada por computação em nuvem, interoperabilidade de sistemas e inteligência artificial, a infraestrutura deixou de ser um detalhe técnico para se tornar parte central da própria disputa institucional.
A atual direção do IBGE sustenta que o modelo tradicional de produção estatística enfrenta limites cada vez mais evidentes diante da velocidade das transformações econômicas, tecnológicas e sociais. Sob essa perspectiva, a integração de registros administrativos, o uso de inteligência artificial e o desenvolvimento de capacidades analíticas mais sofisticadas não representam uma ruptura com a missão institucional do órgão, mas uma adaptação necessária às exigências do século XXI. A defesa do SINGED e das chamadas políticas públicas preditivas parte justamente da ideia de que o Estado brasileiro precisa ampliar sua capacidade de antecipar tendências, identificar vulnerabilidades e formular respostas mais rápidas para problemas complexos. Para seus formuladores, o desafio central não é substituir a estatística oficial, mas expandir seus instrumentos por meio das novas possibilidades oferecidas pela revolução digital.
Foi exatamente nesse ponto que surgiram as maiores divergências.
Em documentos públicos, a ASSIBGE passou a sustentar que a discussão não era tecnológica. Em uma das formulações mais importantes produzidas durante a crise, a entidade afirmou que “para o SERPRO os dados figuram como mercadorias; para o IBGE, são bens públicos e insumos importantes da produção de estatísticas oficiais”. A frase sintetiza boa parte do conflito. A questão central não seria a utilização de novas ferramentas, mas a preservação da lógica institucional que historicamente orientou a produção do conhecimento oficial no país.
O debate ganhou ainda mais complexidade quando se observou a situação estrutural do próprio instituto. Nas últimas décadas, o IBGE sofreu redução de quadros, envelhecimento da força de trabalho e restrições orçamentárias recorrentes. Diversos estudos produzidos por servidores apontam que a modernização passou a ocorrer simultaneamente a um processo de enfraquecimento institucional. Para os críticos, essa combinação cria um ambiente no qual soluções extraordinárias passam a ser apresentadas como inevitáveis.
É justamente nesse contexto que emerge uma das perguntas mais importantes desta investigação.
Quem terá autoridade para definir a realidade oficial brasileira nas próximas décadas?
A pergunta não é retórica.
Quando o IBGE divulga o número oficial de habitantes de um município, aquele dado influencia transferências federais, planejamento urbano e políticas públicas. Quando divulga o IPCA, influencia decisões do Banco Central, dos mercados financeiros e do setor produtivo. Quando divulga o PIB, influencia projeções econômicas, investimentos e decisões governamentais. A autoridade estatística produz consequências concretas.
Por essa razão, organismos internacionais como a Organização das Nações Unidas tratam a independência profissional dos institutos nacionais de estatística como um princípio fundamental. Os Princípios Fundamentais das Estatísticas Oficiais da ONU estabelecem que a confiança pública depende da capacidade de essas instituições atuarem com autonomia técnica, transparência metodológica e proteção contra interferências indevidas.
A questão que começou a dividir o debate brasileiro era justamente como preservar esses princípios em uma infraestrutura cada vez mais baseada em integração massiva de dados, algoritmos e modelos preditivos.
A essa altura, a crise do IBGE já havia deixado de ser uma discussão sobre uma fundação, um contrato ou um programa específico. O que estava em disputa era algo muito maior: a definição das regras que irão orientar a produção do conhecimento oficial brasileiro em uma era marcada pela inteligência artificial.
E essa discussão estava apenas começando.
O futuro pode ser soberano?
A esta altura, a pergunta central desta investigação já não é mais se o Brasil deve utilizar inteligência artificial, Big Data ou integração massiva de registros administrativos em sua produção estatística. Essa discussão, na prática, já foi superada pela própria realidade. Nenhum país com pretensões de desenvolvimento, capacidade de planejamento ou inserção competitiva na economia digital pode abrir mão dessas ferramentas. A questão verdadeira é outra. Sob quais regras essa transformação ocorrerá? Sob qual governança? Sob quais mecanismos de controle democrático? E, sobretudo, a serviço de quem?
Essa distinção é fundamental porque grande parte do debate público tende a apresentar um falso dilema. De um lado estariam os defensores da inovação. Do outro, os defensores do atraso. Os documentos analisados ao longo desta investigação mostram que essa divisão simplesmente não corresponde aos fatos. Nem os servidores do IBGE, nem os especialistas que questionaram determinados aspectos da Fundação IBGE+, do SINGED ou das mudanças institucionais em curso defendem um retorno ao passado. O que aparece de forma recorrente é a defesa de uma modernização capaz de preservar os atributos que transformaram o instituto em uma das instituições mais respeitadas da administração pública brasileira: independência técnica, transparência metodológica, sigilo estatístico, controle público e confiança social.
Essa talvez seja a principal lição que emerge da crise. O problema não é a inteligência artificial. O problema é a governança da inteligência artificial. O problema não é o uso de registros administrativos. O problema é quem define os critérios pelos quais esses registros serão integrados, interpretados e transformados em conhecimento oficial. O problema não é a capacidade preditiva. O problema é quais salvaguardas existirão para impedir que essa capacidade seja utilizada de forma opaca, arbitrária ou politicamente instrumentalizada.
Essa preocupação ganha ainda mais relevância quando observada em perspectiva histórica. Instituições de Estado não são construídas para um governo. São construídas para atravessar governos. Hoje, os sistemas de informação, os modelos analíticos e as capacidades preditivas podem estar sob a direção de uma gestão comprometida com determinados valores democráticos. Amanhã, poderão estar sob outra orientação política. A verdadeira robustez institucional não se mede pela confiança depositada nos governantes do presente, mas pela capacidade de resistir aos governantes do futuro.
Essa questão raramente aparece de forma explícita no debate público, mas ela atravessa toda a discussão sobre soberania informacional. Um sistema estatístico nacional precisa ser concebido para funcionar independentemente de quem ocupa circunstancialmente o poder. Precisa ser capaz de proteger a integridade metodológica das estatísticas oficiais mesmo diante de pressões políticas, econômicas ou ideológicas. Precisa possuir mecanismos que garantam auditabilidade, rastreabilidade e transparência. Precisa tornar possível que pesquisadores, universidades, órgãos de controle e a própria sociedade compreendam como os números foram produzidos.
É justamente por isso que organismos internacionais vêm insistindo na combinação entre inovação tecnológica e preservação da independência estatística. A incorporação de inteligência artificial não elimina a necessidade de supervisão humana. A integração de registros administrativos não elimina a necessidade de validação metodológica. O aumento da capacidade computacional não elimina a necessidade de transparência. Quanto mais sofisticados os sistemas, maior tende a ser a necessidade de mecanismos capazes de garantir confiança pública.
O Brasil possui condições excepcionais para construir esse caminho. Poucos países combinam uma tradição estatística tão consolidada, uma estrutura estatal de produção de dados tão abrangente e um patrimônio institucional comparável ao do IBGE. O desafio não é criar uma infraestrutura do zero. O desafio é modernizar uma infraestrutura já existente sem comprometer os elementos que lhe conferem legitimidade.
Isso exige escolhas concretas. Exige investimento público estável. Exige recomposição dos quadros técnicos. Exige fortalecimento da carreira estatística. Exige transparência integral sobre sistemas de governança de dados. Exige auditoria permanente de algoritmos utilizados em processos decisórios. Exige mecanismos claros de responsabilização. Exige participação da comunidade científica e dos próprios servidores na construção das novas arquiteturas institucionais. Exige, sobretudo, que a produção do conhecimento oficial continue subordinada ao interesse público e não a lógicas comerciais, tecnocráticas ou privadas.
Talvez a principal contribuição da crise do IBGE tenha sido justamente revelar a existência dessa escolha. Durante muito tempo, a modernização tecnológica foi apresentada como um processo inevitável, quase automático. Os acontecimentos dos últimos anos demonstraram que não existe inevitabilidade. Existem decisões políticas, institucionais e estratégicas. Existem diferentes modelos possíveis de transformação digital. Existem diferentes formas de organizar a relação entre tecnologia, Estado e sociedade.
No fundo, a pergunta que atravessa toda esta investigação permanece a mesma desde o início. O Brasil utilizará inteligência artificial para fortalecer sua capacidade de planejamento nacional ou para transferir progressivamente funções estratégicas para estruturas cada vez mais opacas? Construirá uma infraestrutura pública de inteligência estatística ou uma arquitetura dependente de intermediários tecnológicos? Utilizará dados para ampliar sua soberania ou para aprofundar novas formas de dependência?
As respostas ainda estão em disputa.
Mas a própria existência desse debate já revela algo importante: a crise do IBGE nunca foi apenas uma crise do IBGE.
Ela sempre foi uma discussão sobre o futuro do Estado brasileiro.
O direito de o Brasil conhecer a si mesmo
Ao longo desta investigação, a crise do IBGE revelou algo muito maior do que uma disputa administrativa, um conflito institucional ou uma divergência sobre modelos de gestão. O que emergiu foi uma discussão sobre a própria capacidade do Estado brasileiro de produzir conhecimento oficial sobre sua população, seu território e sua economia em um momento de profundas transformações tecnológicas.
Durante décadas, a soberania nacional foi associada à proteção das fronteiras, ao controle dos recursos naturais, à industrialização, à energia e à capacidade de defesa. Todas essas dimensões continuam fundamentais. Mas a revolução digital acrescentou uma nova camada a essa agenda. No século XXI, conhecer tornou-se uma forma de poder. Medir tornou-se uma forma de governar. Produzir informação tornou-se uma capacidade estratégica.
Nenhum país planeja seu desenvolvimento sem compreender sua realidade. Nenhum governo formula políticas públicas eficazes sem saber quem são seus cidadãos, onde vivem, como trabalham, quanto produzem ou quais necessidades enfrentam. Nenhuma democracia funciona adequadamente quando perde a capacidade de produzir diagnósticos confiáveis sobre si mesma.
É justamente por isso que as estatísticas oficiais ocupam uma posição singular. Elas não existem para servir a governos específicos, partidos políticos, grupos econômicos ou interesses privados. Elas existem para servir à sociedade. Sua legitimidade depende de transparência, independência técnica, rigor metodológico e confiança pública. Quando essas condições são preservadas, os números tornam-se instrumentos de cidadania. Quando são fragilizadas, os números podem se transformar em instrumentos de poder.
A pergunta que orientou esta reportagem permanece aberta: quem mede o Brasil?
A resposta, entretanto, tornou-se mais clara ao longo do caminho.
Não se trata apenas de quem coleta dados. Não se trata apenas de quem opera sistemas. Não se trata apenas de quem controla servidores, algoritmos ou bases informacionais. Trata-se de quem possui legitimidade para transformar informação em conhecimento oficial. Trata-se de quem possui autoridade para dizer, diante de mais de duzentos milhões de brasileiros, qual é a fotografia reconhecida da realidade nacional.
Essa autoridade nunca foi um detalhe burocrático. Ela sempre foi um patrimônio estratégico da República.
O século XX foi marcado pelas disputas por território, energia, recursos naturais e capacidade industrial. O século XXI também será marcado por uma disputa menos visível, mas não menos decisiva: a disputa pela capacidade de medir, interpretar e compreender a realidade.
Porque um país que perde o controle sobre a produção do conhecimento oficial acerca de si mesmo não perde apenas informações.
Perde, pouco a pouco, a capacidade de planejar o próprio futuro.
Artigo publicado originalmente em
Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. Editor do codigoaberto.net É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global.