Segundo pesquisa, passa da metade o apoio da população brasileira à redução da jornada de trabalho; Centrão busca “jeitinho” para defender interesses patronais
Fonte: Revista Fórum
Em meio à tentativa de evitar o próprio desgaste às vésperas das eleições, o Centrão confirmou na última segunda-feira (9) que não vai barrar o projeto do fim da escala 6×1, iniciativa proposta pelo governo Lula. A sinalização, porém, vem acompanhada de uma condição articulada nos bastidores: manter as 44 horas semanais.
Na prática, a estratégia esvaziaria o impacto da medida, comprimindo a jornada nos cinco dias úteis e elevando a carga diária para quase nove horas. Uma pesquisa divulgada essa semana pelo instituto Nexus avaliou, no entanto, que a maioria da população brasileira não só é a favor do fim da escala 6×1, como também defende a manutenção da faixa salarial e a redução da jornada de trabalho, da mesma forma que a sugerida no projeto original.
O apoio atravessa diferentes espectros ideológicos. Entre aqueles que votaram em Lula nas últimas eleições, 71% são a favor do fim das 44 horas de trabalho semanais, enquanto aqueles que votaram em Jair Bolsonaro, 53%. Um total de 73% dos brasileiros são favoráveis ao fim da escala 6×1 desde que não haja redução proporcional dos salários, percentual que cresce quando a mudança na jornada de trabalho é dissociada de qualquer impacto na renda dos trabalhadores, e 84% são a favor dos trabalhadores terem, pelo menos, dois dias de folga na semana.
Apesar da repercussão, o conhecimento aprofundado do tema ainda é reduzido a uma parcela da população. Embora 62% afirmem já ter ouvido falar da proposta, apenas 12% dizem entender bem o que ela significa. A pesquisa aponta ainda que quanto maior o nível de informação, maior o apoio: entre os que conhecem bem o projeto, 71% aprovam a medida; o índice cai para 69% entre quem conhece pouco e para 55% entre os que nunca tinham ouvido falar do assunto.
A pesquisa foi realizada entre os dias 30 de janeiro e 5 de fevereiro de 2026. Foram entrevistadas 2 mil pessoas com 16 anos ou mais, nas 27 unidades da Federação. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com intervalo de confiança de 95%.
Encaminhada à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara pelo presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala 6×1 ainda precisará passar por comissão especial antes de eventual votação em plenário. Para 52% dos brasileiros, a proposta deve ser aprovada pelo Congresso; 35% acreditam que não, e 13% não opinaram.
Ao todo, há sete proposições em tramitação no Congresso, quatro na Câmara e três no Senado. Há entre os autores de projetos similares, os senadores Cleitinho (Republicanos-MG), Weverton Rocha (PDT-MA) e a deputada federal Érika Hilton (PSOL-SP).
Em dezembro do ano passado, na Câmara, a subcomissão especial que analisa uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) aprovou a redução gradual da jornada máxima de trabalho de 44 para 40 horas semanais, mas rejeitou o fim da escala 6×1. Já no Senado, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) foi mais adiante e aprovou, também no início de dezembro de 2025, o fim da escala de seis dias de trabalho por um dia de descanso (6×1) e a redução da jornada de trabalho das atuais 44 horas para 36 horas semanais, de forma gradual. É a PEC 148/2015, de autoria de Paulo Paim.
Hugo Motta afirmou que deve “acelerar o debate”, utilizando termos como “equilíbrio” e “responsabilidade”. Na gramática do Congresso, essa terminologia costuma preceder textos que atendem a demandas patronais. O bloco conservador reconhece que votar contra o fim da 6×1 tornou-se inviável politicamente. O tema, que ganhou apoio massivo nas redes sociais e nas ruas através do movimento VAT (Vida Além do Trabalho), é considerado “maduro” e “encaminhado”. O objetivo agora é controlar como o texto será aprovado.
O deputado Claudio Cajado (PP-BA), uma das vozes influentes do Progressistas, sintetizou a estratégia do grupo. “Vai votar, é consensual acabar com a 6 x 1. Agora vamos discutir se serão 44 horas em cinco dias ou 40 horas. Está dividido. O custo-Brasil não pode aumentar.”
A proposta do Centrão de uma escala 5×2 mantendo as 44 horas semanais gera um problema na CLT. Para cumprir a carga horária sem trabalhar aos sábados, o trabalhador teria que estender sua jornada diária em 48 minutos (totalizando 8h48 diárias), ou o banco de horas se tornaria a regra, e não a exceção.
Além da manutenção das 44 horas, outra frente de atuação dos setores empresariais é a fragmentação da negociação. Há uma articulação para que a nova jornada não seja uma regra geral imediata, mas sim definida por categoria via convenção coletiva. A tática enfraquece sindicatos de setores com menor poder de barganha, como comércio e serviços, justamente onde a escala 6×1 é mais predatória, permitindo que a “exceção” se torne regra em contratos de trabalho específicos.
Do lado do Planalto, a redução da jornada para 40 horas é tratada como prioridade. O Ministro da Secretaria-Geral, Guilherme Boulos, rebateu os argumentos econômicos do setor patronal, comparando-os aos discursos históricos contra avanços trabalhistas. “Já os setores empresariais contra os direitos dos trabalhadores repetem os mesmos argumentos surrados desde a abolição da escravidão, passando pela criação da CLT, 13º salário e férias”, declarou.
O ministro também alerta que a oposição à redução real da jornada ficará restrita à extrema direita e cobrará seu preço nas urnas: “Quem se opuser à redução da escala terá que prestar contas nas urnas em outubro”.
A disputa agora se dá na Comissão Especial e no Plenário, onde o governo terá que mobilizar sua base para evitar que o fim da escala 6×1 seja aprovado apenas “no papel”, mantendo a carga exaustiva que adoece o trabalhador brasileiro.