Fonte: SINTUFCE
O Conselho Universitário (CONSUNI) da Universidade Federal do Ceará aprovou, na última sexta-feira (22), a concessão do título de Doutor Honoris Causa ao ex-ministro da Educação, ex-governador do Ceará e atual senador da República Camilo Santana. A proposta, apresentada pelo reitor da UFC, Custódio Almeida, recebeu 34 votos favoráveis e seis votos contrários — todos da bancada representante dos servidores técnico-administrativos em educação (TAE) no conselho.
A votação ocorreu durante a 151ª reunião ordinária do CONSUNI, que também aprovou outras duas honrarias: o título de Professor Honoris Causa ao docente José Eduardo Souza de Cursi e o título de Doutor Honoris Causa ao arquiteto, urbanista e compositor Fausto Nilo.
A posição contrária da bancada TAE foi formalizada por meio de uma declaração conjunta apresentada ao conselho e assinada pelas conselheiras e conselheiro Cristiane Xerez Barroso, Elaine Vigianni Oliveira Teixeira, Eudiana Vale Francelino, Erika Michelle de Oliveira Conrado Leopoldino, José Hemison de Sousa Magalhães e Raimunda Heveline Ribeiro Quirino.
No documento, os representantes afirmam que o voto foi construído “estrita e exclusivamente nos direitos, nas pautas e na realidade da categoria dos servidores Técnico-Administrativos em Educação”, destacando o descumprimento de acordos firmados após a greve nacional de 2024, a descaracterização do Reconhecimento de Saberes e Competências (RSC), a ausência de avanços em pautas históricas da categoria e a postura do Ministério da Educação (MEC) diante da mobilização grevista.
“O ex-ministro passou os 100 dias da greve de 2024 sem nos receber e os 60 dias da greve dos docentes também sem recebê-los. Os técnico-administrativos em educação não esqueceram”, registra o texto lido no conselho.
A conselheira Elaine Teixeira destacou que a decisão da bancada foi construída coletivamente e dialogada com a direção do SINTUFCE e com servidores da UFC que procuraram os representantes TAE antes da votação.
“Apesar de uma visão macro que a gente entende, de todo o contexto político, nós agimos a partir da perspectiva do que aconteceu com a nossa categoria. Nós estamos no Conselho Universitário representando os servidores técnico-administrativos em educação. Então, nosso voto reflete essa representação”, afirmou.
Elaine ressaltou ainda que a bancada já sabia que seria voto vencido, diante da ampla maioria favorável à concessão do título. Mesmo assim, considerou importante realizar uma “demarcação política” em defesa da categoria.
“A gente sai de lá de cabeça erguida, com muita consciência e integridade. O conselho não existe apenas para referendar proposições; ele existe também para discutir e apresentar diferentes pontos de vista”, declarou.
Segundo ela, além da questão relacionada ao acordo de greve e ao RSC, também pesaram no posicionamento críticas à política educacional conduzida por Camilo Santana no MEC, como a manutenção do Novo Ensino Médio e a falta de avanços em demandas estruturais da educação pública.
O coordenador geral do SINTUFCE, Carlos Florêncio, afirmou que o sindicato acompanhou a reunião do CONSUNI e articulou junto à bancada TAE o posicionamento contrário à concessão da honraria.
“Considerando todo o acúmulo negativo da atuação do Camilo Santana à frente do Ministério da Educação durante a nossa greve e antes, durante e depois dela, o voto foi contrário”, afirmou.
Carlos destacou que o sindicato reconhece avanços ocorridos nas gestões de Camilo Santana enquanto governador do Ceará e também no Ministério da Educação, mas reforçou que os problemas enfrentados pela categoria não poderiam ser ignorados.
“A nossa criticidade não olha apenas para um viés. Nós reconhecemos avanços, mas também não podemos negar os problemas que ocorreram, principalmente à frente do MEC. A categoria passou por descaso, deboche e ausência de diálogo”, declarou.
O dirigente também ressaltou que os seis votos contrários representaram uma posição coletiva e coerente da bancada TAE.
“A nossa categoria precisa lembrar do que passamos e de onde estamos hoje. O SINTUFCE sempre vai se posicionar em defesa dos servidores técnico-administrativos em educação”, completou.
O coordenador de Administração e Finanças do SINTUFCE e conselheiro do CONSUNI, Hemison Magalhães, destacou que a posição da bancada foi construída coletivamente e expressou o acúmulo político da categoria após a greve de 2024.
“A categoria destacou no voto a greve histórica de 2024, quando os técnicos-administrativos, docentes e estudantes foram às ruas cobrar valorização, reestruturação de carreira e recomposição salarial”, afirmou.
Hemison lembrou que os servidores técnico-administrativos em educação permaneceram mais de 100 dias em greve sem serem recebidos pelo então ministro da Educação.
“Diante de tantas promessas não cumpridas, parcial ou integralmente, como a questão das 30 horas, a bancada optou por votar contrariamente à indicação”, explicou.
O conselheiro também mencionou que entidades da Universidade Federal de Ouro Preto já haviam se manifestado contra iniciativa semelhante de concessão do título a Camilo Santana naquela instituição, por meio de nota conjunta assinada pela ASSUFOP, ADUFOP e Diretório Central dos Estudantes (DCE).
Após a leitura da declaração de voto da bancada TAE, diversos conselheiros realizaram manifestações em defesa da concessão do título, destacando ações desenvolvidas durante os governos de Camilo Santana no Ceará e sua atuação à frente do Ministério da Educação.
Os representantes estudantis presentes na reunião também manifestaram apoio ao posicionamento da bancada TAE, mas, segundo os conselheiros, não permaneceram até o momento da votação devido à longa duração da sessão e por não ter cadeira eletiva ativa.
Mesmo minoritária, a posição da bancada TAE foi considerada pelos representantes como um registro político e histórico da insatisfação da categoria diante da condução das negociações e do tratamento dispensado aos servidores técnico-administrativos em educação durante a gestão de Camilo Santana no MEC.