A renda média do grupo era de R$ 2.322 mensais, quase 40% abaixo dos pais com cônjuge (R$ 3.869) e 11,5% inferior à das mães casadas
Fonte: Jornal GGN
Pesquisa resultado de mestrado em políticas públicas no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revela que as mães solo brasileiras estão entre os grupos mais vulneráveis do mercado de trabalho. Com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua de 2022, o estudo mostra que o Brasil tinha, naquele ano, mais de 10,9 milhões de mães solo, mulheres chefes de domicílio com filhos e sem cônjuge, número equivalente à população total de Portugal.
A renda média desse grupo era de R$ 2.322 mensais, quase 40% abaixo dos pais com cônjuge (R$ 3.869) e 11,5% inferior à das mães casadas. A diferença se aprofunda quando se olha para outros indicadores: apenas 50,2% das mães solo estavam ocupadas, contra 81% dos pais com cônjuge. E somente 28,3% contribuíam para a previdência social, pouco mais da metade do percentual registrado entre pais casados (54,8%).
“Essa baixa cobertura previdenciária representa uma vulnerabilidade de longo prazo para as mães solo, comprometendo a segurança social na velhice ou em situações de incapacidade”, alerta Mariene Ramos, funcionária pública e jornalista responsável pela dissertação.
A concentração dessas mulheres em setores historicamente desvalorizados é outro dado que chama atenção: 21,9% das mães solo trabalham como empregadas domésticas, proporção quase 27 vezes maior que a dos pais com cônjuge (0,8%) e quase o dobro das mães casadas (11,8%).
Para Mariene, a escolaridade explica parte do problema: mais de 55% das mães solo têm, no máximo, o ensino médio incompleto, mas está longe de ser a única causa. “Muitas vezes, o empregador supõe que aquela pessoa vai ter menos disponibilidade e vai render menos. Então, ela acaba não conseguindo ocupar cargos mais altos ou ocupa aqueles com salário um pouco mais baixo”, observa a pesquisadora.
O recorte racial reforça as desigualdades: 62% das mães solo são negras. Além disso, 33,5% delas vivem em domicílios com idosos, proporção mais que o dobro das mães casadas (15,7%), o que pode significar uma rede de apoio, mas também uma segunda ou terceira jornada de cuidado.
Diante dessa sobrecarga, não surpreende que 57% das mães solo dependam de algum benefício social do Estado, percentual muito superior ao dos pais com cônjuge (19%). Para Mariene, isso é sintoma direto de um mercado de trabalho que falha em absorver adequadamente essa mão de obra. “Como essas mães não estão conseguindo receber [através do trabalho] um rendimento que consiga arcar com suas despesas, o Estado acaba tendo que entrar com benefícios”, afirma.
A pesquisadora defende três frentes prioritárias: expansão das creches em tempo integral, reconhecimento do trabalho de cuidado não remunerado e qualificação profissional. Os dados são alarmantes: em 2024, apenas 41,2% das crianças de até 3 anos tinham acesso a creches no Brasil, segundo a ONG Todos pela Educação. Entre os mais pobres, essa taxa caía para 30,6%.
Sem creche, não há como estudar nem trabalhar, e Mariene sabe disso na pele. Durante o mestrado, levou a filha para as aulas noturnas, inclusive no aniversário de 14 anos da menina, que assistiu a uma aula de Econometria ao lado da mãe.
“Precisamos olhar para essas 11 milhões de mães solo. Não se trata mais de um grupo marginal, mas de uma transformação estrutural do país”, conclui a pesquisadora. “Quando o mercado e as políticas públicas se ajustam a essa realidade, toda a economia ganha.”
*Com informações da BBC News.