Apostas de crescimento são conservadoras; em 2025, Focus errou com apostas contra desempenho econômico do país
Fonte: Revista Fórum
OBoletim Focus divulgado nesta segunda-feira (19) pelo Banco Central confirma a tendência observada desde o início de 2026 nas apostas da Faria Lima para a economia brasileira: inflação sob controle, perspectiva de queda dos juros e expectativas cautelosas para o crescimento econômico e as contas públicas.
Para o IPCA, a mediana das projeções recuou de 4,06% há quatro semanas para 4,02%, movimento que mantém a inflação dentro da banda da meta oficial de 3,5%, com tolerância de 1,5 ponto percentual. As projeções mensais reforçam o quadro de desaceleração: janeiro ficou em 0,35%, fevereiro em 0,53% e março em 0,35%, com a inflação acumulada em 12 meses suavizada em 4,04%.
A Selic, por sua vez, permanece estimada em 12,25% ao fim de 2026, abaixo da taxa atual de 15%. O mercado, portanto, segue apostando em um ciclo gradual de cortes nos juros ao longo do ano, sinalizando um ambiente monetário menos restritivo.
No crescimento econômico, o tom continua conservador. A projeção para o PIB de 2026 segue em 1,80%, sem alterações nas últimas semanas. O número contrasta com o desempenho mais robusto observado em 2025, quando a economia cresceu acima das expectativas iniciais do próprio mercado.
O câmbio também mostra estabilidade: o dólar permanece projetado em R$ 5,50 para 2026, indicando ausência de pressão cambial relevante no horizonte de curto e médio prazo.
Apesar do cenário relativamente benigno para inflação e juros, especialistas voltam a questionar o viés das projeções do mercado. O professor Rafael Viegas, da FGV, destaca que, nos últimos anos, o Focus tem subestimado o crescimento, exagerado riscos fiscais e superestimado pressões inflacionárias, frequentemente errando contra o desempenho real da economia.
Segundo ele, esse padrão não é neutro: contribui para sustentar narrativas de austeridade permanente, juros altos e desconfiança em relação à política econômica do governo Lula, mesmo quando os dados oficiais mostram resultados melhores do que o esperado.
Com inflação na meta, juros em trajetória de queda e crescimento estável, o Boletim Focus de janeiro reforça um paradoxo recorrente: o mercado reconhece a melhora dos fundamentos, mas mantém um discurso excessivamente prudente — que influencia o debate público e a condução da política econômica no país.