Pensar para além do pensamento cristão enraizado em nossa cultura é o primeiro passo para compreendermos a diversidade religiosa e cultural do Brasil.
Quando pensamos em possessão espiritual somos levados automaticamente às lembranças de produções cinematográficas que abordam essa questão, nessas produções observamos sempre a temática da luta do Bem contra o Mal. Também notamos que o cristianismo protagoniza sempre o lado Bom dessa batalha, e que é ainda o alicerce de todo o enredo da história contada no filme.
Isso ocorre em nossa sociedade porque a ideia de possessão espiritual está vinculada à tradição cristã. Somos sem dúvidas uma sociedade mergulhada no cristianismo, comenta João Batista Libânio, que “a cultura ocidental não se pensa sem a história do cristianismo. Ele permeou-a em todos os campos, desde o estritamente religioso até o político, passando pelo artístico”[2]. Tal fato pode ser percebido quando vamos visitar os países Ocidentais, num simples passeio pela América Latina é possível enxergar as marcas do cristianismo seja nas construções de igrejas ou nomes de ruas e cidades.
O cristianismo está na cultura Ocidental como o sal está na água do mar, não podemos visualizar o sal na água do mar, entretanto, podemos sentir a água salgada. O Brasil não foge dessa regra, aqui talvez mais que em qualquer outro lugar, pois o cristianismo é vivido por grande parte de sua população, chegando a mais de 90% da população brasileira. Desta maneira, quando o assunto é possessão espiritual nós a interpretamos rapidamente como uma luta entre o Bem e o Mal do ponto de vista cristão.
A possessão não tem lugar dentro da religião católica, que esteve presente desde o início da colonização do Brasil. Para a Igreja Católica a possessão sempre foi algo demoníaco voltado para o Mal, que trará grande tragédia e dor para a pessoa submetida à ela. Desta forma, o catolicismo deve combate a possessão tanto com base em princípios teológicos, mostrando que a entidade que domina aquela pessoa está longe de ser uma presença santificada, uma vez que os vícios da carne e da alma são frutos do maligno e são mais fortes no momento da possessão; no ponto de vista moral, o catolicismo qualifica as ações da pessoa em estado de possessão como algo que foge dos padrões de moralidade.
A pesquisadora e historiadora Patrícia Birman retrata um caso interessante de possessão:
Numa pequena cidade da França, no século XVII, um grupo de freiras pertencentes a uma convento de ursulinas começa a sofrer casos sucessivos e cada vez mais intensos de possessão. No final de algum tempo se forma um verdadeiro exército de endemoninhadas, chefiado pela própria autoridade máxima do convento, a madre Joana dos Anjos. Após vários episódios dramáticos, o diagnóstico da possessão é estabelecido, juntamente com a forma de seu combate: o exorcismo. O padre Surin, especialista em possessão, veio promover uma guerra total aos demônios. Em nome da fé, empunhando a cruz, tentará expulsá-los dos corpos das freiras. O terror da possessão, se apresenta com grande verossimilhança: “vemos” a ação dos diabos provocando nas freiras os mais desenfreados comportamentos, atitudes sexuais desregradas em nada condizentes com os votos de castidade. Os corpos das freiras tornaram-se o palco vivo de uma luta, criando-se fronteiras entre o Bem, simbolizado pela ação do padre exorcista, e o Mal, caracterizando como demônio em todos os comportamentos adversos à moral católica. A ação exorcista é que vai dar nitidez e concretude às fronteiras entre o Bem e o Mal. O padre classifica e denomina os demônios, identifica e relaciona os comportamentos a serem exorcizados e por essa via estabelece a moral cristã. (1983, 11-12)
No caso citado acima, percebemos que a possessão espiritual é voltada sempre como o completo oposto da santidade. As freiras do convento no momento da possessão perdem seu caminho para santidade, voltam suas atitudes para promiscuidade sexual, quebrando seus votos de castidade e voltando-se para um comportamento imoral. O que é descrito no caso do convento, consiste na queda imagem do Santo para a possessão demoníaca, se o Santo é uma comunhão mística mais próxima da divindade que é boa e moralmente correta, o espírito na possessão é maligno é o cúmulo da vileza e imoralidade.
Todavia, essa visão sobre a possessão espiritual é exclusiva do pensamento católico. Nas religiões afro-brasileiras a possessão é algo diferente: primeiro, não é visto como uma mazela, algo que causa dor e sofrimento a pessoa; segundo, as religiões afro-brasileiras não tem intenção de expulsar as entidades sobrenaturais, mas de aprender com elas e formar uma convivência com elas. A possessão dentro do culto afro-brasileiro passa longe da dicotomia católica, a entidade sobrenatural não é uma figura única, mas uma variedade de espíritos que podem descer no pai-de-santo desde: índios, caboclos, crianças, pretos-velhos e orixás.
No catolicismo, há a existência dos “santos” pessoas que atingiram um estado de pureza por não compactuar com os pecados mundanos, tais indivíduos podem ser mediadores entre os fiéis e Deus, ajudando as pessoas a superarem as dificuldades da vida, com a graça de sua santidade, entretanto, os santos são sempre indivíduos inteiramente relacionados com uma moral perfeita e incorruptível. Já na Umbanda e no Candomblé a integridade moral de um exu (entidade), não entra em questão, é sabido que não é possível confiar na retidão moral de um exu, porém, isso não influencia no seu poder enquanto uma entidade sobrenatural, não coloca em dúvida o conhecimento e a ajuda que pode oferecer aos que o cultuam.
Por conseguinte, a possessão espiritual está para além do Bem e do Mal nas religioes afro-brasileiras, uma vez que não há uma máxima moral que guia as entidades espirituais, como há no cristianismo. Para ser mais preciso são duas visões com lógicas diferentes: enquanto no catolicismo/cristianismo expulsa os demônios, na constante luta entre o perfeito e o imperfeito; as religiões afro-brasileiras aceitam o que os diversos espíritos podem oferecer aos homens mediante possessão de seus médiuns, tendo sempre em mente que o espírito não é perfeito e incorruptível, mas falho igual ao humano.
Pensar para além do pensamento cristão enraizado em nossa cultura é o primeiro passo para compreendermos a diversidade religiosa e cultural do Brasil. Com essa transcendência somos capazes de entender que as religiões afro-brasileiras que possuem a possessão espiritual como um rito dentro de suas práticas religiosas, não são maléficas ou rituais de feitiçaria. E que à lógica cristã não é um parâmetro universal utilizável para analisar religiões de matriz africana como: Candomblé e Umbanda. Com isso, o preconceito religioso com as religiões afro-brasileiras caminha alguns passos para sua superação. Todavia, há um trabalho gigantesco para ser feito dentro da sociedade brasileira para que o brasileiro consiga assimilar que dentro do seu país tem à existência de uma multiplicidade e pluralidade de expressões de crença e fé, que compõem aquilo que é denominado como Brasil.
Desta forma, o diferente não pode ser para sempre interpretado como o mal do mundo, diria Achille Mbembe, mas como a grande riqueza da sociedade humana. Às religiões afro-brasileiras que sempre foram excluídas da sociedade, não desejam a diferença como parâmetro excludente, mas como uma inclusão para aquilo que o mundo de fato é: múltiplo e plural. Se em seus discursos essas religiões propagam possuir uma forma diferente de fé e cultura, não é mais para se afastar do mundo, mas mostrar que são parte dele, assim, precisam ser protegidas pelas leis desse mundo, ao qual estão inseridas historicamente.
[…] a diferença é resultado da construção de um desejo e de um trabalho de abstração, de classificação, de divisão e de exclusão – um gesto de poder que, por conseguinte, é interiorizado e reproduzido nos gestos da vida de todos os dias, inclusive pelos próprios excluídos. […] Mas se, de fato, a diferença consiste no desejo (isto é, a vontade), esse desejo não é necessariamente desejo de poder. Também pode ser desejo de ser protegido, de ser poupado, de ser poupado do perigo. (MBEMBE, 2014, p 305-306)
REFERÊNCIAS
BIRMAN, Patrícia. O que é umbanda?. Editora Brasiliense, São Paulo, 1983.
SILVA, Vagner Gonçalves da. Candomblé e Umbanda: Caminhos da devoção brasileira. Editora Ática, 1994.
MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. Primeira Edição. Lisboa, Editora Antígona, 2014
Site:
https://www.otempo.com.br/opiniao/joao-batista-libanio/o-cristianismo-e-a-cultura-ocidental-1.697. Acesso em: 18/08/2022
[1] Professor de Filosofia, com mestrado em Filosofia Contemporânea. Atualmente é professor na Faculdade São Paulo de Presidente Venceslau (FASPREV). Leciona a Disciplina de Diversidade e Cultura indígena e afro-brasileira, também é criador do Projeto Filosofia Engajada divulgado no blog: https://filosofiaengajada.wordpress.com/
[2] https://www.otempo.com.br/opiniao/joao-batista-libanio/o-cristianismo-e-a-cultura-ocidental-1.697 Acesso em 18/08/2022.
Fonte: Jornal GGN