Uma das preocupações apontadas diz respeito à democracia e às eleições deste ano no Brasil
Fonte: Brasil de Fato
O mundo continua assistindo e aguardando os desdobramentos do ataque dos Estados Unidos à Venezuela, na qual resultou na prisão do presidente eleito Nicolás Maduro. Os resultados dessa ação seguem reverberando. O mais recente, como mostrou o Brasil de Fato, diz respeito ao anúncio feito pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que afirmou na terça-feira (6) que o governo da Venezuela aceitou entregar entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo ao país. Mas qual será o impacto desse ataque para o Ceará? Especialistas conversaram com o Brasil de Fato e apresentaram uma breve análise sobre os impactos tanto sociais como econômicos para o estado.
Fábio Sobral, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), economista com doutorado em Filosofia pela Unicamp, analista econômico e geopolítico afirma que para o Ceará os impactos desses ataques podem ser de forma indireta, por exemplo, no aumento do combustível.
“O que pode ocorrer é indiretamente, como já ocorreu, o aumento dos preços do petróleo e uma certa valorização do dólar do câmbio, do dólar frente ao Real, isso aumentaria a inflação dos produtos importados, então a economia cearense, ao comprar dos Estados Unidos, com o dólar mais caro, se tornaria mais difícil, haveria uma certa inflação, e o petróleo é fundamental, ele acaba corrigindo o preço dos seus derivados, dos combustíveis, e com isso fretes, transportes, deslocamentos todos são afetados”, explica Sobral.
Só que esses efeitos, como Sobral mesmo informa, não atingem somente o Ceará, mas também outras partes do mundo. Mas para Sobral, a maior preocupação em relação a esses ataques é em relação ao destino do próprio Brasil, das Américas do Sul e Central frente às ações agressivas dos Estados Unidos. “Nós sabemos que no Ceará, por exemplo, tem reservas estratégicas de urânio, de minério, de ferro. Aqui no litoral cearense, provavelmente, há essa zona de pré-sal que vai do Rio Grande do Norte até o Amapá, então nós temos ativos estratégicos que os Estados Unidos podem ter interesse em controlar. Então, as maiores preocupações resultam da agressividade [norte] americana frente a recursos da América do Sul”.
Outra preocupação apontada por ele diz respeito à democracia e às eleições deste ano no Brasil. “Como é que o governo Trump vai se posicionar frente as eleições de 2026? Ele vai interferir nas nossas eleições indiretamente com apoio a um candidato, com as mídias sociais, fazendo um ataque sistemático a posições que divirjam? Ou pode até interferir diretamente? Essas são as grandes preocupações”.
Fabiano Sousa, mestre em Ensino de História e professor da Rede Pública Estadual do Ceará, aponta como esses ataques poderiam afetar o Ceará. “À primeira vista não afetaria o Ceará, a não ser que você olhe isso, talvez, através do espectro político, onde os setores de oposição ao governo Elmano poderiam utilizar este acontecimento para associar o governo Maduro a governos de esquerda em geral, no caso, o governo Elmano no Ceará, o associando, inclusive, a uma questão que é muito latente aqui no nosso estado ultimamente, o combate ao tráfico de drogas”.
De acordo com Sousa, essa temática do combate às drogas também se tornou um dos pilares do governo do estado, mas, como ele mesmo aponta, apesar dos trabalhos e números apresentados pelo governo, a oposição bate muito nesse quesito dizendo que o governo do estado não teria feito o suficiente, chegando até mesmo a fortalecer o discurso de que “o estado estaria entregue às organizações criminosas”, e esse poderá ser um discurso muito utilizado pela direita e extrema-direita neste ano, assim como vimos em casos nacionais recentes, como no Rio de Janeiro.
Sousa também acredita que após o ataque à Venezuela, haverá um combate incessante da direita e extrema-direita no Ceará em relação a qualquer tipo de organização popular, principalmente no que diz respeito à reivindicação por melhores condições de vida, de trabalho e de moradia.
Após a ação dos Estados Unidos na Venezuela, diversos políticos de esquerda do Ceará mostraram apoio ao povo Venezuelano e criticaram a ação estadunidense. O governador do estado do Ceará Elmano de Freitas (PT), por exemplo, disse em suas redes sociais que “O ataque contra a Venezuela é grave e representa precedente extremamente perigoso. Ataques a nações violam as regras do direito internacional e contribuem para o surgimento de novas guerras, que só trazem mortes, sofrimento e destruição. Que a ONU encontre o melhor caminho para responder e mediar essa situação em solo venezuelano. O diálogo e a paz devem prevalecer, sempre!”
O deputado estadual Guilherme Sampaio (PT), também se manifestou em suas redes sociais. “A comunidade internacional deve repudiar imediatamente a agressão americana, sob pena de assistir de forma omissa o interesse econômico de Trump fazer do mundo seu quintal, causando morte e destruição. Inaceitável!”
“É muita má-fé ou desconhecimento dizer que os EUA agem para enfrentar ditaduras ou para combater o narcotráfico. Diversas ditaduras são aliadas dos EUA no mundo (p.ex. Arábia Saudita, Egito, El Salvador, Paquistão) e recentemente Trump perdoou o ex-presidente de Honduras condenado por narcotráfico. O que ele quer é o petróleo e mais poder sobre a América do Sul!”, disse a deputada estadual Larissa Gaspar (PT).
Em contrapartida, diversos representantes da direita e extrema-direita mostraram apoio aos Estados Unidos e ao Trump. Para Sobral, “A comemoração de parlamentares e de pessoas que expressam lideranças da direita, da extrema-direita, a um ataque a um país para controlar seus recursos naturais significa o cúmulo da subserviência, do colaboracionismo”. Sobral continua, “aqui, esse grupo de extrema-direita desempenha o papel de traidores do povo brasileiro, traidores do Brasil. São representantes muito mais dos seus interesses privados, eles estão muito mais de olho no quanto vão ganhar em dinheiro do que nos destinos do nosso povo. É extremamente vergonhoso”.
O Brasil de Fato também procurou ouvir o governo do estado do Ceará a respeito dos impactos, mas até o fechamento da matéria não houve retorno.
Editado por: Lívio Pereira