Em relatório divulgado em 2019, a entidade apontou que oito das dez principais causas de morte no Brasil eram doenças crônicas não transmissíveis
Fonte: Jornal GGN
As doenças cardiovasculares seguem como a principal causa de mortes no Brasil e compartilham características com a maioria das enfermidades que figuram entre as dez maiores taxas de mortalidade no país. São doenças multifatoriais, de longa duração, geralmente associadas à degeneração física ou mental e, em sua maioria, incuráveis. Também estão ligadas a fatores de risco modificáveis, como sedentarismo, consumo excessivo de álcool, tabagismo e alimentação inadequada. Apesar dessas semelhanças, o conjunto das chamadas doenças crônicas engloba condições bastante diversas, que vão de diabetes e artrite a demências, Covid longa e enfermidades raras, como a fibrose cística.
No Brasil, esse cenário representa um desafio adicional. O país convive simultaneamente com perfis de mortalidade associados tanto a doenças agudas, de evolução rápida e curta duração, quanto a enfermidades crônicas, de progressão lenta e prolongada. Essa sobreposição, segundo o historiador Luiz Alves Araújo Neto, pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz) e professor do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde (PPGHCS), é típica de sistemas de saúde marcados por desigualdade social e pobreza.
O tema é analisado em estudo que integra o livro Relações de poder, sociedade e ambientes: discursos e práticas no Brasil Império e da República (Editora UFPE, 2024). Na obra, o pesquisador destaca a centralidade das doenças crônicas não transmissíveis no país, as contradições que elas produzem e a necessidade de avaliar seus impactos sociais. Para Luiz, ainda há uma lacuna na historiografia brasileira sobre o assunto. Ele observa que o sistema de saúde nacional foi estruturado para responder, prioritariamente, a doenças agudas, o que resulta no que define como um “processo de agudização das doenças crônicas”.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) reforçam essa avaliação. Em relatório divulgado em 2019, a entidade apontou que oito das dez principais causas de morte no Brasil eram doenças crônicas não transmissíveis, com destaque para câncer, cardiopatias, diabetes e doenças neurodegenerativas, como as demências. “Uma questão fundamental à historiografia das [doenças] crônicas envolve a discussão sobre como a emergência dessas doenças e das demandas para seu cuidado colocam um tensionamento entre a saúde pública e a biomedicina”, afirma o historiador, que pesquisa o tema desde o mestrado.
Entre os aspectos que considera centrais para a investigação histórica estão a produção do conhecimento biomédico, a organização da saúde pública e a experiência de adoecimento. Para ele, a emergência das doenças crônicas tensiona a relação entre saúde pública e biomedicina, especialmente em função dos altos custos associados ao cuidado prolongado, que envolve medicamentos, tecnologias e atenção especializada, pressionando orçamentos públicos e privados.
O conceito de cronicidade começou a se consolidar no século 19, em meio a transformações do pensamento médico europeu e norte-americano, quando passou a prevalecer a noção de que as doenças eram entidades específicas, causadas por agentes determinados. No século seguinte, nos Estados Unidos, o avanço dos seguros de saúde ampliou a preocupação com enfermidades que incapacitam trabalhadores, impulsionando políticas de prevenção e tratamento.
Segundo Luiz, processos como a medicalização da sociedade, a urbanização e a industrialização ampliaram a visibilidade de doenças crônicas já reconhecidas, como câncer, cardiopatias e diabetes, além de favorecerem a identificação de novas condições. O desenvolvimento da genética, da biomedicina e de especialidades como a medicina do trabalho e a geriatria permitiu compreender enfermidades associadas à incapacidade funcional. A introdução de medicamentos que prolongam a vida e o envelhecimento populacional também contribuíram para o aumento da incidência dessas doenças.
A expansão das doenças crônicas exigiu a reorganização dos sistemas de saúde. Por serem mais complexas, demandam um modelo de atenção integrado, que vá da Atenção Primária à Atenção Terciária, além de maior diversidade de especialidades médicas. Enquanto condições como hipertensão e diabetes podem ser acompanhadas na atenção básica, doenças pulmonares crônicas, cardiopatias, cânceres e enfermidades neurodegenerativas requerem acompanhamento especializado. O cuidado, mais longo e complexo, eleva os custos para o poder público, o setor privado e as famílias.
Luiz aponta fragilidades na articulação da rede de atenção à saúde no Brasil, especialmente na Atenção Secundária e na comunicação entre os diferentes níveis do sistema.
“De modo geral, as doenças crônicas demandam um funcionamento da rede muito amplo e que, no Brasil, é problemático. Há pontos da rede que são muito bem estruturados, mas outros não, como a Atenção Secundária [envolve serviços de médica complexidade e consultas com médicos especializados]. E há falhas na comunicação, como a relação entre a Atenção Terciária e a Primária. Os hospitais, muitas vezes, e os postos de saúde não têm um sistema de comunicação. Isso, para as doenças crônicas, em muitos casos, é dramático e gera tensões, com uma ponta da rede acusando a outra pela dificuldade de acesso. Os hospitais dizem que a Atenção Primária não sabe encaminhar pacientes, e a Atenção Primária diz que os hospitais não querem aceitá-los, e por aí vai”, relata.
O debate sobre o cuidado das doenças crônicas no Brasil ganhou força a partir da década de 1970, mas apenas em 2013 foi lançado o Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT), atualizado em 2021. Para o pesquisador, os planos avançaram ao contemplar doenças como diabetes, cardiopatias e câncer, mas deixaram de fora condições como as síndromes pós-virais.
Ele também critica abordagens centradas exclusivamente na prevenção de fatores de risco e na incorporação de tecnologias de ponta, sem considerar as condições de vida da população. “Em um país onde muitas doenças são diagnosticadas tardiamente, o principal gargalo é o acesso ao diagnóstico precoce. Além disso, não faz sentido falar em estilo de vida sem considerar os contextos sociais”, afirma. Para Luiz, a incorporação da perspectiva da determinação social da saúde é fundamental para lidar com enfermidades multicausais e complexas.
Na avaliação do historiador, o maior desafio do Brasil é construir uma política capaz de abarcar, de forma integrada, doenças crônicas tão distintas. As demandas variam conforme a condição: em cânceres e doenças genéticas, o diagnóstico precoce é decisivo; em obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares, os estilos de vida têm peso central; já nas síndromes pós-virais, a principal questão é a invisibilidade e o descrédito dos sintomas.
Pesquisas desenvolvidas na Casa de Oswaldo Cruz têm abordado enfermidades específicas, como diabetes, tuberculose, sífilis, câncer e cardiopatias, muitas vezes discutindo aspectos típicos da cronicidade, como a convivência prolongada com a doença e o isolamento social. Em 2025, foi criado um projeto dedicado à história das doenças crônicas no Brasil, coordenado por Luiz, que também ministrará, ao lado da pesquisadora Juliana Manzoni, uma disciplina sobre história da medicina e das doenças no PPGHCS.
Para o historiador, compreender a multiplicidade de experiências associadas às doenças crônicas é essencial. “A diabetes vivenciada pela pessoa doente é diferente daquela com a qual os pesquisadores lidam no laboratório, e por consequência, da que profissionais lidam na prática do cuidado. Essa multiplicidade também resulta em variações nas análises históricas, construindo diferentes passados que podem ser concorrentes, mas também podem colaborar para a formulação de práticas, conhecimentos e políticas atentas à complexidade dessas enfermidades”, conclui.