Fonte: SINTUFCE
“Entre o Fazer e o Cansaço: Desafios Vividos pelas Trabalhadoras nas Instituições de Ensino Superior” foi o tema de uma mesa-redonda promovida pelo Sindicato dos Trabalhadores das Universidades Federais no Estado do Ceará (SINTUFCE) na tarde desta terça-feira, 18 de novembro.
A atividade, aberta ao público e com participação de pessoas que foram dialogar no Auditório do SINTUFCE e também no ambiente online, propôs uma reflexão crítica sobre as rotinas enfrentadas pelas mulheres no ambiente universitário, uma realidade marcada pela sobrecarga de trabalho, pelo machismo institucional, pelo racismo estrutural e pelas múltiplas jornadas que recaem de forma desigual sobre as trabalhadoras, especialmente negras, indígenas e periféricas.
A roda de conversa contou com a presença de convidadas com ampla experiência acadêmica, profissional e militante na pauta de gênero, raça e direitos sociais:
A atividade é uma iniciativa do Grupo de Trabalho (GT) de Combate às Opressões do SINTUFCE e foi mediada pela coordenadora de Formação, Equidade e Enfrentamento às Opressões do SINTUFCE, Sarah Ramos. Ao abrir o evento, Sarah ressaltou que a discussão nasce da demanda das próprias trabalhadoras e da necessidade de visibilizar pautas historicamente silenciadas
“Nós sabemos que o ambiente universitário impõe um ritmo exaustivo, e que esse peso recai de forma desigual sobre as mulheres. Este espaço é para escutar, denunciar e construir resistências coletivas. Não estamos falando de casos isolados, mas de estruturas inteiras que precisam ser transformadas.”
Durante o debate, as participantes compartilharam experiências pessoais e profissionais que evidenciam como o ambiente universitário ainda reproduz desigualdades históricas. Foram abordadas questões como o adoecimento mental das trabalhadoras, a falta de políticas institucionais de cuidado, e a importância da coletividade e da luta sindical como formas de resistência.




Na primeira parte da mesa-redonda, as palestrantes estabeleceram um panorama do trabalho dentro das universidades federais. Livia Paulia apresentou dados recentes sobre a presença de estudantes negros no ensino superior. Apesar de avanços, ela demonstrou que o crescimento da presença branca superou proporcionalmente o de pretos e pardos. Ela também trouxe sua própria experiência para ilustrar a desigualdade.
“Entre 2019 e 2022, houve aumento de estudantes pretos e pardos, mas o crescimento de estudantes brancos foi ainda maior. O retrato da universidade continua sendo branco. Isso afeta a formulação das políticas e o reconhecimento das demandas de raça e gênero. Na minha área de ciências exatas, sou a única mulher negra entre quase cinquenta servidores. Isso significa não ter ressonância. O que vivemos vira ‘exceção’, nunca problema estrutural.”
Natália Menezes reforçou o tema a partir de um episódio vivido em sua rotina profissional. Ela também destacou o impacto das múltiplas jornadas sobre as mulheres.
“Tive minha autoridade questionada porque esperavam que a nutricionista responsável fosse branca. Esse tipo de expectativa é violência. Para mulheres negras gestoras, é preciso ser firme o tempo inteiro para não apagarem nossa liderança. Acumulamos o trabalho acadêmico, doméstico, emocional e familiar. São camadas de cobrança que adoecem. E ainda temos que medir palavras para não sermos chamadas de ‘loucas’ ou ‘histéricas’.”
Morgana Sampaio apresentou dados do Observatório da Presença Negra que revelam desigualdades salariais profundas. Ela também criticou o produtivismo acadêmico, entre outras questões desafiadoras.
“Servidores negros ganham, em média, 21% menos que servidores brancos e acumulam 8% mais tempo de serviço. A desigualdade salarial está viva, documentada e institucionalizada. A universidade virou uma máquina de moer gente. Somos pressionadas a produzir sem parar — artigos, projetos, relatórios — e isso corrói nossa humanidade.”
Rosângela Ribeiro, chamou atenção para dimensões biológicas ignoradas pela lógica da produtividade e também alertou para mecanismos de inclusão simbólica.
“As discussões sobre desempenho ignoram questões como a menopausa, que afeta diretamente o corpo e o rendimento das mulheres. Isso não aparece porque os critérios de avaliação foram criados por homens. O tokenismo é quando somos colocadas em chapas, comissões ou cargos apenas para compor a foto. É inclusão sem poder real. Precisamos aprender a dizer ‘não’.”
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A segunda parte da mesa foi dedicada a práticas de cuidado e sobrevivência dentro da universidade. As convidadas enfatizaram a importância da ação coletiva e do autocuidado. Assim, foram apresentadas algumas soluções para a equidade de gênero e raça.
“Nada enfraquece mais o sistema do que mulheres organizadas. É assim que a gente sobrevive”, resumiu Rosângela Ribeiro, sobre a potência da organização entre mulheres. “Assumir meu cabelo natural foi romper com a estética da dominação. É um ato político, identitário e até econômico”, revelou Rosângela, ao compartilhar seu processo de abandonar o alisamento,
“A ideia de nunca desistir é fascista. Desistir pode abrir caminhos novos. É preciso reconhecer quando algo já não faz sentido”, provocou Morgana Sampaio, ao falar sobre rupturas necessárias. Morgana também citou o livro “Sobre desistir”, de Adam Philips, ao falar que nunca desistir é uma ideia “fascista” e que desistir pode ser um processo criativo que abre novas possibilidades, sendo crucial para a autoavaliação.
“Precisamos trazer saberes ancestrais para dentro da universidade. Reencantar o espaço, torná-lo um lugar de vida”, defendeu Natália Menezes, que acredita em uma universidade como espaço de criação e não apenas de cobrança. Natália também defendeu o autocuidado como uma forma de enfrentamento. “Para mulheres negras, autocuidado é resistência. Fazer terapia, descansar, cuidar do cabelo… tudo isso rompe o ciclo que tenta nos adoecer”.
A mesa-redonda reafirmou o compromisso do SINTUFCE com a construção de espaços mais justos, inclusivos e equitativos nas universidades públicas. Ao final, foi reforçado o convite para que mais trabalhadoras se engajem nas ações do GT de Combate às Opressões e fortaleçam a luta por direitos e dignidade.
“Seguiremos construindo ambientes em que as mulheres possam existir sem serem atravessadas por violências naturalizadas. Esse debate não se encerra aqui — é parte da luta por uma universidade verdadeiramente democrática”, finalizou Sarah Ramos.