Fonte: SINTUFCE
Os servidores técnico-administrativos em educação (TAE) das universidades federais cearenses — Universidade Federal do Cariri (UFCA), Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) e Universidade Federal do Ceará (UFC) — aderiram à paralisação nacional da categoria contra a Reforma Administrativa, nos dias 29 e 30 de julho de 2025.
A mobilização foi convocada pela Federação de Sindicatos de Trabalhadores Técnico-administrativos em Instituições de Ensino Superior Públicas do Brasil (Fasubra), entidade nacional da qual o Sindicato dos Trabalhadores das Universidades Federais no Estado do Ceará (SINTUFCE) é filiado.
Em Fortaleza, a paralisação teve como principal espaço de convergência a tenda montada pelo SINTUFCE no pátio da Reitoria da UFC. Na terça-feira (29), as atividades tiveram início com um café da manhã, seguido da mesa-redonda intitulada “A Reforma Administrativa e o desmonte do serviço público: o que eu tenho a ver com isso?”. O debate foi composto por figuras centrais da luta sindical e jurídica da categoria: Gabryella Ruiz, assessora jurídica do SINTUFCE; Cláudia Lóssio, servidora TAE da UFC e dirigente da Fasubra; Heloísa de Paula Pessoa Rocha e João Victor Serra Nunes, coordenadores de Assuntos Jurídicos, Carreira e Relações de Trabalho do SINTUFCE; além do coordenador geral da entidade, Carlos Alberto Florêncio Filho.
Já na quarta-feira (30), durante a tarde, o debate teve continuidade com o tema “Sem servidor, a boiada passa”. A mesa foi mediada por Sarah Ramos Medeiros, coordenadora de Formação, Equidade e Enfrentamento às Opressões do SINTUFCE. Participaram da conversa diversas lideranças do movimento sindical e estudantil: Pedro Costa (presidente do Sindicato dos Docentes da Universidade Estadual do Ceará – Sinduece), André Ferreira (presidente da ADUFC Sindicato), Nathan de Deus (diretor do Diretório Central dos Estudantes da UFC – DCE), Roberto Araújo (coordenador de Comunicação do Sindicato dos Servidores do Instituto Federal do Ceará – SINDSIFCE) e Ana Maria Dias de Lima (coordenadora geral do SINTUFCE).
As falas foram precedidas por uma apresentação musical do servidor TAE e músico Marcos Fukuda, que também é coordenador de Educação, Esporte, Lazer e Cultura do SINTUFCE. Ao violão, Fukuda interpretou canções de autores cearenses, reafirmando o compromisso do sindicato com a cultura e a identidade local.
No Cariri, a mobilização se concentrou na manhã da terça-feira (30), no miniauditório Bárbara de Alencar, no campus da UFCA em Juazeiro do Norte. O debate sobre os impactos da Reforma Administrativa foi conduzido pela professora, escritora e historiadora Sued Carvalho, que também preside a seção estadual da Unidade Popular (UP), partido comprometido com as lutas populares e a defesa dos direitos sociais e mediado pelos servidores TAE da UFCA, Breno Lopes e Gedeão Correia. Gedeão também é um dos coordenadores de formação, equidade e enfrentamento às opressões do SINTUFCE.
Durante os debates, diversas falas destacaram os efeitos prejudiciais da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 32/2020, que institui a Reforma Administrativa. Cláudia Lóssio alertou sobre a falta de representação dos trabalhadores do serviço público no Grupo de Trabalho (GT) sobre a Reforma na Câmara dos Deputados. Segundo a dirigente, o GT foi constituído sem a presença das entidades sindicais, e o relatório final foi produzido sem diálogo com as categorias diretamente afetadas.
“O grupo de trabalho já estava montado sem a presença das entidades que representam o serviço público. O relatório já foi apresentado ao Congresso. A gente não sabe o que está escrito nele, mas sabemos que os supersalários não serão pautados. O que será atacado é o trabalhador da ponta, como nós. O salário dos militares também não será afetado. A mídia tenta vender a reforma como modernizadora, mas é tudo mentira. É precarização”, denunciou Cláudia.
A assessora jurídica do SINTUFCE, Gabryella Ruiz, também alertou para o risco de extinção da estabilidade no serviço público, uma das garantias fundamentais para o funcionamento técnico e ético das instituições estatais.
“Hoje, se um cargo é extinto, o servidor é aproveitado em outro setor da universidade, preservando seu direito à estabilidade. Com a PEC 32, esse servidor poderá ser demitido, tratado como um fardo. Imagine alguém que passou a vida inteira servindo à universidade e, ao fim da carreira, é descartado porque seu cargo foi considerado obsoleto. É brutal”, afirmou.
Gabriella também criticou a ampliação dos contratos temporários, prevista na proposta:
“A PEC 32 autoriza a contratação por tempo determinado para atender necessidades transitórias, com duração de até 10 anos. Ora, que urgência é essa que dura uma década? É uma tentativa disfarçada de privatizar e fragilizar o serviço público, substituindo o concurso por contratos precários”.
João Victor Serra Nunes reforçou o caráter ideológico da proposta, ao evidenciar que o Estado brasileiro trata o serviço público como gasto e não como investimento.
“Comparado a outras economias, o Brasil tem um número baixo de servidores públicos. Os Estados Unidos, por exemplo, gastam mais com o serviço público do que o Brasil, mesmo sem oferecer um sistema como o SUS. Isso mostra que o discurso da ‘máquina pública inchada’ é uma falácia. Precisamos instrumentalizar esses dados para fortalecer nossa luta”, destacou.
O coordenador geral do SINTUFCE, Carlos Florêncio, sintetizou o sentimento da categoria diante da paralisação:
“A paralisação foi um recado claro: os servidores técnico-administrativos em educação não aceitarão calados o desmonte do serviço público. A Reforma Administrativa não é uma modernização — é um projeto de exclusão social que retira direitos, ataca a estabilidade e ameaça o futuro das universidades públicas. Nossa luta é em defesa do povo, da educação e do Brasil”.
Ele reconheceu que, embora a adesão ainda esteja aquém do necessário, a mobilização teve efeito educativo e de alerta para a base.
“A categoria conseguiu perceber o perigo da Reforma Administrativa. Tanto o SINTUFCE quanto os servidores estão atentos, prontos para ser semeadores dessa luta e para espalhar o alerta entre seus colegas. Esse é o primeiro passo para barrarmos esse retrocesso”, concluiu.