Como os sindicatos perderam o bonde da comunicação digital, por Luís Nassif

Publicado por Teia Digital
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Há 15 anos, logo após o golpe do impeachment, apareceu uma oportunidade para os sindicatos montarem sua rede de comunicação digital

Fonte: Jornal GGN

Só agora montou-se uma rede de esquerda capaz de se contrapor às do bolsonarismo. Juntaram-se sindicatos, provavelmente a Fundação Perseu Abramo, e deram alguma consistência ao uso das ferramentas digitais.

Há exatamente 15 anos, logo após o golpe do impeachment, apareceu uma oportunidade para os sindicatos montarem sua rede de WhatsApp, em um momento em que o fenômeno das redes estava restrito ao universo bolsonarista.

Na crise que se seguiu ao golpe, Paulão, da Confederação Nacional dos Metalúrgicos, me procurou para uma palestra no CNM e para sugestões de ação.

Apresentei, então, um modelo de comunicação digital em duas frente.

Frente portal – um portal que consolidasse os portais que a CNM mantinha em outros estados, aproveitando a rede de assessores de imprensa. Haveria um processo de criação de conteúdo, que iria para uma base única. Depois, cada estado definiria suas prioridades, as manchetes e destaques. Mas haveria uma coordenação para trabalhar pautas conjuntas. O único investimento seria em uma sucursal em Brasilia, para acompanhamento das pautas políticas e trabalhistas.

Frente WhatsApp – a segunda frente seria a montagem de uma rede de WhatsApp. A direita acionava as redes sociais atrás de militantes, por não dispor ainda (naquela época) de uma base formada. Mas os sindicatos já tinham essa base. Tratava-se, agora, de integrá-la para poder espalhar as mensagens em seus ambientes.

No projeto apresentado, mostrei diversas possibilidades: 

  1. Em parceria com o Dieese, a montagem de um sistema de pesquisas, por WhatsApp, com um representante em cada empresa metalúrgica medindo nível de emprego, de satisfação etc. Haveria uma verdadeira agência sindical, com eventos – a divulgação mensal da pesquisa – que dariam visibilidade na mídia.
  2. Estimuladores sociais, pessoas capazes de montar eventos e ampliar a sociabilidade entre os membros do Sindicato.

O projeto foi apresentado à CNM. Mas foi vetado liminarmente por Paulo Vannuchi, que detinha amplos poderes sobre a CNM e a TVT. Não houve conversa, tentativa de entender a importância das novas formas de comunicação e de agregação. Um comportamento, aliás, bastante semelhante aos dos dirigentes do PT de São Paulo nas grandes manifestações de 2013 – que, no início, tinham liderança progressista. Simplesmente fecharam as portas à nova geração, para não abrir espaço político. Os influenciadores de direita tornaram-se as grandes armas do bolsonarismo.

São 12 anos de paralisia, de atraso na guerra digital, fruto da burocracia do partido. Agora, corre-se atrás do prejuízo.